16 de dez de 2012

Para o HMBF



“Não existem planos em larga escala na política, nem sequer algum que se construa em termos de princípios básicos. Quais os resultados? Entre outros, que a política tem sido, de um modo geral, complacente. A razão é simples. Trata de problemas práticos à medida que eles vão surgindo e sem referência a princípios básicos; a política é uma espécie de negócio de mascate. Ora, os mascates impacientam-se, irritam-se, mas, normalmente, não se consideram entre si como demônios que houvessem tomado a forma humana. Mas isto é precisamente o que os homens de princípio e os planejadores sistemáticos não podem deixar de fazer. Um princípio é, por definição, justo; um plano, para o bem do povo. Axiomas dos quais logicamente decorre que aqueles que discordam de nós e não querem ajudar a realizar nosso plano são inimigos da bondade e da humanidade. Já não são mais homens, nem mulheres, mas personificações do mal, encarnações do demônio. Matar homens e mulheres é uma injustiça, mas matar demônios é um dever. Daí o Santo Ofício, daí Robespierre e o Ogpu. Os homens dotados de forte fé religiosa e revolucionária, os homens possuidores de planos bem-arquitetados para melhorar a sorte de seus semelhantes, quer neste mundo quer no outro, têm sido mais sistematicamente e premeditadamente cruéis do que quaisquer outros. Pensar em termos de princípios básicos implica agir com peças de artilharia. Um governo com um plano compreensivo para a melhoria da sociedade é um governo que emprega a tortura. Per contra, se nunca atendemos a princípios, nem temos nenhum plano, mas examinamos e tratamos as situações como e à medida que elas vão surgindo, por partes, fragmentariamente, achamo-nos, então, em condições de ter policiais desarmados, liberdade de palavras. Admirável; mas, que sucede quando uma sociedade industrial aprende (a) a realizar progressos tecnológicos numa aceleração constante e (b) num cenário de superpopulação? Resposta: ou terá de se organizar de acordo com princípios políticos e econômicos gerais, ou fracassará. Mas os governos que se pautam por princípios e planos não têm geralmente passado, até aqui, de tiranias que fazem uso de espiões de polícia e do terrorismo? Devemos resignar-nos à escravidão e à tortura em prol da coordenação? 
Fracasso de um lado. Inquisição e Ogpu do outro. Um verdadeiro dilema, se o plano for principalmente econômico e político. Mas examinemos o caso com as vistas voltadas para os indivíduos – homens, mulheres e crianças, não para os Estados, Religiões, Sistemas Econômicos e abstrações da mesma espécie; há, então, a esperança de passar entre as pontas do dilema. Pois, se começarmos por considerar pessoas concretas, veremos imediatamente que o fato de se acharem livres de toda coação é uma condição necessária de seu desenvolvimento em seres humanos completos; que a forma de prosperidade econômica consistente em possuir objetos desnecessários não contribui para o bem-estar individual; que um lazer preenchido com divertimentos passivos não constitui um bem; que as comodidades da vida urbana são compradas por alto preço fisiológico e mental; que uma educação que nos permite a má conduta não vale quase nada; que uma organização social de que resulta serem os indivíduos forçados, de poucos em poucos anos, a partir para se matarem uns aos outros, deve estar errada. E assim por diante. Ao passo que, se partirmos do Estado, da Fé, do Sistema Econômico, há uma completa transposição de valores. Os indivíduos devem matar-se uns aos outros porque os interesses da nação o exigem; devem ser educados no sentido de cuidarem dos fins e desprezarem os meios, porque os mestres-escola não se fazem esperar e não conhecem outro método; devem viver a agonia em cidades, devem ser instigados a comprarem coisas de que não precisam, porque o sistema industrial existe e precisa ser mantido em atividade constante; devem ser coagidos e escravizados, porque, do contrário, poderiam pensar em si e causar embaraços aos seus governantes. 
O sabat foi feito para o homem. Mas o homem agora se comporta como os Fariseus e insiste em que ele é que é feito para todas as coisas – ciência, indústria, nação, dinheiro, religião, escolas – que foram realmente feitas para ele. Por quê? Porque tem tão pouca consciência de seus próprios interesses como ser humano, que se sente irresistivelmente tentado a sacrificar-se por esses ídolos. Não existe outro remédio a não ser tornarmo-nos conscientes dos nossos próprios interesses como seres humanos e, uma vez conscientes, aprendermos a agir em conformidade com essa consciência.”

(Sem Olhos Em Gaza, by Aldous Huxley. Editora Globo, 1980.)

Dedicado ao Henrique M. B. Fialho, como forma de retribuição tardia não apenas pela dedicatória (que sempre me deixam sem palavras) um dia feita, mas por tantos posts publicados a me ajudarem na tentativa de manter a mente aberta a novas ideias, a inspirarem diversas reflexões, a movimentarem os mais paradoxais sentimentos.


Publicado originalmente no Rainbow & Wafer.

2 comentários:

hmbf disse...

Muito agradecido.

Saúde,

Daniel Ricardo Barbosa disse...

Saúde! E um grande abraço! Volta sempre...