28 de nov de 2012

Homeostase

(http://discoveryblog-discoveryblog.blogspot.com.br/2012/08/amazonia-primitivos-habitantes-parte-1.html)


Um breve debate entabulado nos comentários do post “Ventos do Norte e Sul (Leste e Oeste) III” (parte de uma série de publicações que, em seu sítio original, recebem a tag “Sobre a Ilusão das Fronteiras”), levado adiante por um anônimo a partir de duas frases do amigo Victor Hugo, trouxe-me algumas reflexões a respeito da Natureza Humana. Perguntei-me seriamente se a corrupção não nos seria inata, uma conclusão a que se pode chegar, suscitada ou reforçada pelo supracitado post. 

E lá fui apanhar livros na estante e refrescar algumas ideias que o meu atual pessimismo ocultara sob teias de aranha. Ora, se existem relatos em pergaminhos que dão conta de casos de corrupção até na Antiga Civilização Egípcia, a fim de responder sobre natureza humana - corrupção, faz-se necessário passar as vistas não somente na altercação entre Kant e Hegel, "conceitos" evolucionista e naturalista, mas visitar o remoto tempo dos indígenas e aborígenes, quando eles sequer haviam erguido as “suas pirâmides". 

Embora se possa encontrar sem-número de pessoas com conhecimento maior a respeito de determinado campo de estudo do que grande parte daqueles que lecionam ou têm os nomes ligados aos meios acadêmicos, vale ressaltar que a “formação oficial” de Bruce Chatwin é mais relacionada à Arte Moderna do que à Antropologia ou História. 

Em seu “O Rastro dos Cantos”, no entanto, Chatwin se embrenha em vasta gama de assuntos. E nos revela que, ao reler os trabalhos do entólogo Konrad Lorenz, “passou a compreender por que as pessoas sensatas tendiam a se horrorizar com os escritos do estudioso: porque refutavam a existência de algo como a natureza humana e insistiam que tudo devia ser aprendido. Para elas, o ‘determinismo genético’ ameaçava todo valor liberal, humano e democrático a que o Ocidente ainda se agarrava”. Um pouco adiante, no mesmo livro, o autor diz que tais pessoas reconheciam apenas “que você não podia selecionar e escolher os instintos: era preciso pegar o conjunto”.¹ 

Em primeiro lugar, questiono sobre a possibilidade de o que chamamos de natureza humana, ser o conjunto formado apenas pelos instintos primários, impregnados nos genes, e, posteriormente, também por tudo o que a eles se junta, ou seja, “tudo aquilo que deve ser aprendido”, incluindo aí a ética, os valores etc. A seguir, fatalmente surge a pergunta: a corrupção se situa junto aos  instintos primários ou seria algo empírico? Não acredito, ou melhor: não encontro nenhum registro razoável, que trate a corrupção como instinto, portanto, a partir de qual evento ou momento da História Humana ela passou a ser "aprendida"? 

A diferença que salta às vistas, entre os denominados “homens primitivos”, indígenas, aborígenes, quando traçamos paralelo com a “moderna civilização”, obviamente não reside na ausência de hierarquias. Não se pode chamar as antigas "comunidades" indígenas e aborígenes de “Estado” ou “Comuna Primitiva”, como o fazem alguns historiadores e ideólogos, mas claro está para os antropólogos, que havia hierarquia entre os indígenas. Fosse ela representada pela figura do pajé, chefe, cacique ou mesmo ancestrais espirituais, deuses, mitos cultuados, a existência deles significava hierarquização. A direção apontada pelos anciões, ancestrais, caciques, era seguida com reverência pelos demais membros da comunidade. 

O peso que os indígenas e aborígenes não carregavam nos ombros, antes de construírem as "suas pirâmides", e que salta às vistas do observador, pode ser resumido como “conceito de propriedade”. Não seria errado considerar as árvores, rios, o céu etc., como as pirâmides dos índios primevos. Mas jamais seriam suas pirâmides, pois não existia tal concepção – meu. Em algumas tribos nômades sequer se empregava pronomes possessivos, ausência que persiste ainda hoje em algumas tribos brasileiras, por exemplo, pois não fazia sentido julgar sequer o que lhes cobria o corpo ou cabeças como “seu”, “sua”, “meu”, “minha”.

Homem e Natureza eram a mesma coisa livre de cercas, impossível a dissociação até mesmo para os próprios membros das “comunidades”. Inexistia um elo, que fosse tênue, para que se levantasse sequer a hipótese de um ser “criado ou evoluído” levando adiante a sua luta para dominar, superar, vencer, dividir a Natureza. A homeostase entre todos os elementos existentes, inclusive o humano, sequer era pensada, apenas vivida. Quanto menos minimamente contestada. 

Tomemos os Maias como exemplo. A partir do momento em eles que deixaram de ser nômades (não por decisão comum inspirada em surto ou hipnose coletiva, mas em arbítrio tomado muito provavelmente através de uma hierarquia), e se estabeleceram em aldeias, espalharam as suas cidades autônomas (por volta do ano 1000 a.c.), ao contrário do que poderia julgar quem os visse dominando avançadas técnicas agrícolas e se multiplicando tremendamente, no entanto, a concepção de propriedade nasceu, consequentemente sua comunidade entrou em decadência. Por volta do século X, as principais cidades, a exibirem construções espantosas aos olhos dos turistas atuais, tinham sido completamente abandonadas devido ao esgotamento do solo e recursos naturais. Antes disso, segundo achados arqueológicos, sabe-se que aconteceram intrigas pela domínio da ascendência junto à comunidade, principalmente entre aqueles que sempre ocuparam o "alto da pirâmide hierárquica", mas agora encontravam motivos para conspirar. 

Ainda em “O Rastro dos Cantos”, Bruce Chatwin apresenta argumentos de diversas origens, defendendo que, seja qual for a sociedade, a sua ascensão não tem data para chegar a um ápice, mas a decadência começa quando ela se torna sedentária. Coincidência que só então nos surja a necessidade de delegar ou demarcar propriedade? 

Nesta linha de raciocínio, não importa quais sejam os pronomes pessoais que se empregue, seja a divisão realizada entre os particulares de qualquer tempo, regida por ordem hierárquica ou gerida por qualquer que seja a organização estatal. A partir do momento em que se se renega o prazer ou ímpeto pelas paisagens (este sim instinto próprio da Natureza Humana), tão bem retratado por Chatwin, e então, se erguem as cercas, passam a existir motivações para intrigas, conspirações, corrupção. 

É claro que não se pretende com tudo isso recomendar à modernidade o “estilo de vida dos indígenas e aborígenes”. Thoreau não escreveu sobre adotar tal “modelo”. Emerson até mesmo persistiu que precisávamos abandonar os "sistemas" antigos. Ainda assim, as suas palavras deram margem aos mal interpretadores de textos ou simplesmente maldosos e até hoje ambos são rotulados como ingênuos. E não que se possa dar importância ao adjetivo dito pelo ignorante, mas em grande parte por causa dele, poucos são os que têm a sensibilidade de levar Thoreau e Emerson a sério. 

Levando em conta razões meramente práticas, no entanto, não por temer adjetivos e rótulos, quem dedicar tempo a pensar a questão a sério, logo chegará à conclusão sobre a inviabilidade de uma “imitação do índio” nos tempos atuais, mas saberá ser fundamental observar determinadas conjunturas do passado. 

Vivemos época como nenhuma outra - óbvio: nenhum tempo é como o que foi ou será –, mas crucial. Pela primeira vez o ser humano se vê rigorosamente perante à possibilidade de sua completa extinção, pelo menos. E, ainda que se deixasse de lado o fato, há significativa parte da população, que tende a se tornar mais e mais numerosa, ciente de que não quer mais viver sob os ditames exaustivos e inférteis daquilo que constitui a “vida moderna”. Não vemos saída! Não enxergamos sistema alternativo que tenha se mostrado harmonioso não apenas em livros, mas elaborado a partir de bases que não desconsiderem o atual estágio humano e ambiental. 

Ainda que não seja possível repetir o índio dos tempos em que ainda não tinham sido erguidas as pirâmides, seria contraproducente não tomar o passado como referência. Acredito que uma revisita à verdadeira História, não aquela apontada pelos dedos parciais dos governos, pode nos levar a conclusões relevantes e indicar caminho, caso se queira realmente realizar alguma mudança. Consultando desde o mais longínquo passado, pelo menos nos livramos da chance de alguém laborar modelo falho, mas depois dar a desculpa de que não se sabia que espalhar cercas por aí inadvertidamente, cada vez mais abrangentes, enquanto outras restringem a maioria numa panela de pressão de alta densidade demográfica, acarretaria consequências graves. Somente esta visita ao passado dos homens a quem chamamos primitivos enquanto aprontamos a próxima pena de morte, poderá dar luz a um modelo que tenha em conta não apenas política e economia, mas história, ecologia, biologia, geografia, filosofia etc. 

Tal visita me parece muito mais produtiva do que simplesmente olhar para trás, saudoso por um tempo não vivido, e dizer, olhos mareados, que aquela homeostase, embora possuísse pureza, verdadeiros valores, ética, liberdade, paz, felicidade, verdade, autenticidade, jamais se repetirá. Trata-se de algo que eu posso um dia ter desejado ou com a qual me iludido.  O tempo, porém, nos mostra que as circunstâncias de determinada época, embora possam clarear caminhos a se seguir dali por diante, realmente carregam a impossibilidade de repetição. Já a Liberdade e a Verdade... quem sabe?


¹ Trecho de "O Rastro dos Cantos", de Bruce Chatwin. Companhia das Letras, 1996.

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