28 de nov de 2012

A Arte Aborígene

Escultura em Madeira de um dos vários Artistas Anônimos de origem aborígene da Austrália. (Fonte: http://bocaberta.org/2009/06/esculturas-intrigantes-na-floresta-tropical-da-australia.html) 


Bradshaws ou Gwion Gwin são denominações da mais antiga iconografia da figura humana. Falamos de obras que se espalham por área de 50 mil quilômetros e cerca de 100 mil sítios arqueológicos australianos. Algumas de suas pinturas datam 40 e 60 mil anos de idade, mas a Arte Aborígene continuou a ser praticada ininterruptamente até a chegada dos colonizadores, que não deram grande importância àquelas pinturas, por lhes parecer meros traços infantis. Entretanto, era certo que tais obras possuíam significado cultural mais amplo, que os colonizadores, mais interessados em riquezas de outro tipo, nunca poderiam imaginar. Igualmente certo que a importância das Bradshaws não se restringia apenas ao uso ritual, mágico ou mesmo ao poder de barganha, mais comum em outras culturas pré-históricas.¹

Somente nos anos 1960 se chegou a esclarecimentos sobre a dimensão do real significado daquelas pinturas para a História Humana. Foi quando o apresentador britânico David Attenborough e sua equipe passaram algum tempo em companhia dos aborígines a fim de gravar a respeito das pinturas. Tanto uma breve exposição sobre as Bradshaws, quanto as conclusões de David Attenborough, seguem a partir dos 35 minutos do vídeo abaixo (é possível ativar a legenda clicando no ícone em formato de "balão" à direta e embaixo no player):²




“Para identificar a verdade da qual estas pinturas fizeram parte, você precisa reconhecer que elas são apenas uma parte. Elas não existem por si próprias. Elas são acompanhadas por música, pelo canto, pelo didgeridoo, pelo bater da madeira; e são acompanhadas por narrativas, em canções de imensas estórias complexas. Assim a música é um elemento integral de todos os pontos de vista e tentar subtrair isso de um pedaço da pintura é como empobrecer a pintura.”²


Tendo em mente tal constatação, a ser conferida a partir dos 35 minutos do episódio do documentário acima, pode-se supor que subtrair não apenas a música da pintura, mas alienar a profunda e inegável representatividade artística do Canto, da Pintura, da Narrativa e ou mesmo da “interpretação” dos aborígenes ao redor das fogueiras, poderia ser confundido, ainda que não se a perceba a primeira vista, como uma tentativa de delimitar a criação artística às obras que hoje são arrematadas em leilões ou unicamente ao que sai dos ateliers acadêmicos. 

Aliás, tendo em conta não apenas a Arte Aborígene, mas estendendo a colocação à dualidade Homem-Arte, pode-se supor também que fazer julgamentos a partir de premissas quantitativas (maior ou menor), como nos diria J. D. Salinger, seria (outra vez: ainda que não se o perceba a primeira vista) “se despojar de toda a poesia, abrir mão de toda a poesia, abster-se da compreensão ou gosto pela corrente fundamental de poesia que passa através das coisas, de todas as coisas”³



¹ Fonte: Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Pintura_na_Austr%C3%A1lia)
² Episódio 4 do documentário "How Art Made The World", dirigido por Nigel Spivey. BBC, 2005.
³ Trecho de "Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira", de J. D. Salinger. Companhia das Letras, 2001.

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