10 de out de 2012

Noite e Dia - Disturbance III

Fotografia de Rafael Lage. Na imagem se vê dois dos artesãos que a sociedade convencionou a chamar como "hippies".

Mendigo: pedinte; indigente. Aquele que pede esmola para viver. (Dicionário Silveira Bueno.) 

Em Belo Horizonte, eles se espalham principalmente pelas vias centrais da metrópole, mas também se concentram em pequenos grupos nos bairros adjacentes às áreas consideradas nobres da capital. 

Higienização: ato ou efeito de higienizar. (www.dicionarioweb.com.br/higienizacao.html

Em São Paulo, bem como em outros municípios, ouve-se falar muito em política de higienização como sendo limpeza étnico-social. Sobretudo os moradores de favela que têm os seus “barracos” incendiados e logo veem ser construídos na área, agora limpa (higienizada), caríssimos e luxuosíssimos condomínios fechados. 

Coincidência: as construtoras dos condomínios sempre figuram entre os principais doadores de fundos de campanha política dos candidatos vários a vereador, prefeito, governador, presidente. 

Na capital do belo horizonte, no entanto, pouco se divulga sobre a “política local de higienização”. Alguns daqueles que contra ela lutam, procuram meios de se fazer escutar - Beleza da Margem -, prevalecer os seus direitos, ainda que contem com poucas ferramentas (as ferramentas dos artesãos, por exemplo). Os demais, os indigentes ou mendigos, que vivem no silêncio, silenciados permanecem. 

O Comentário síntese: “Tem que fazer isso mesmo! O mundo está cheio demais de gente!”. 

Dezenas ou centenas de mendigos – milhares? – espalhados pelas ruas. Surgem fiscais da prefeitura e polícia municipal e militar. Tomam-lhes cobertores, jornais, papelões, carrinhos de arrame que eles labutaram durante dias para encher de material reciclável. Arrancam-lhes documentos: marginalizam. 

Não muito tempo depois, durante a madrugada, aparece o caminhão d’água (conhecido como caminhão pipa), jorrando potente jato para todos os cantos. Temperatura: 10º célsius. Sensação térmica: muito abaixo. 

Mendigos molhados, gelados, tremendo. Alguns morrem pela idade avançada e saúde debilitada. Os que sobrevivem agradecem pelo menor dos males – não são todos os que têm a “sorte” de um banho gelado em plena madrugada. Eles conheceram muitos companheiros de esmolas que simplesmente desapareceram sem deixar vestígios. 

“O mundo está cheio demais de gente!” -, dizem os comentários. É preciso fazer isto mesmo? 

Resposta: o prefeito foi reeleito no último domingo. Mas se outro tivesse sido eleito, daria no mesmo quadro! Cidade Higienizada - a prerrogativa. A Copa do Mundo vem aí! 

Por detrás das lindas montanhas das Minas Gerais, o horizonte é realmente belo. Imagina-se como não seria o lugar antes de ele ser tomado pela metrópole. O Horizonte sempre me lembra a Estrada. Lembra-me Partida. Lembra-me que seguir o impulso à liberdade e alegria das margens não impediria de me sentir Estrangeiro para onde quer que eu fosse. Mas me daria razoável paz.


Postagem publicada originalmente no Noite e Dia.

2 comentários:

V.H. de A. Barbosa disse...

Essa prosa mais engajada me fez lembrar o Viramundo de o Grande Mentecapto, do Fernando Sabino, quando ele está em Belo Horizonte.

Ando meio decepcionado com a humanidade. Acho que cada pequeno avanço é sucedido de um grande e irrestrito retrocesso. Não vamos sair nunca dessa pasmaceira conservadora e liberal.

Qual é esse livro do Huxley? Você me deixa sem graça me passando tantos livros e eu sem nada para contribuir. Me permite repassar algo? Diga que tipo de linhas quer ler e eu acho aqui na minha estante algo que vai agradá-lo.

Perto de BH, uma vez, faz tempo, eu fui visitar minha irmã. Depois disso teve o batizado do meu sobrinho, mas não pude ir.

victorhabarbosa@gmail.com

Um abraço!

Daniel Ricardo Barbosa disse...

Providenciei o "Grande Mentecapto". Começarei a leitura durante a próxima semana - com grande curiosidade, confesso, nunca li Fernando Sabino.
E mandarei e-mail comentando inclusive as suas sempre instigantes colocações. Abraço!