3 de out de 2012

Noite e Dia - Disturbance I


Fotografia de autoria desconhecida. (Fonte: http://www.georgiatrackers.org/photos/sign/).

Às vezes penso nos comentários dos internautas como as várias camadas a formarem rochas à beira-mar ou paredes de uma caverna. As notícias, artigos, resenhas que recebem visitas e subsequentes apontamentos dos leitores muitas vezes me surpreendem. Mas os comentários impressionam muito mais.

Quando o espírito se encontra forte o bastante, para que as elucubrações não me atinjam de modo que eu as tome como algum tipo de afronta pessoal (pergunto-me como poderia não considerar pessoal, algo que, direta ou indiretamente, repercute consequências no meio onde subsisto, condicionando-me a viver sob os novos parâmetros), porém, faço como os geologistas, aprofundando as vistas nas camadas de verbos, adjetivos, abreviações.

Diferente dos citados cientistas, cujo trabalho de campo os leva a reconhecer valiosas informações a partir dos vestígios encontrados das diversas eras, creio me deparar com “ricas” mostras deste tempo, que convencionamos chamar por contemporâneo. Mostras estas, em sua grande parte, desalentadoras.

Vale dizer que não tenho o costume de sopesar qualquer que seja a geração de modo isolado. Sejam as gerações caracterizadas pelo irresistível impulso de romper com o passado, ou aquelas outras, que preferiram tomá-lo como exemplo de boa conduta, não seria possível renegar todo o processo que levou a espécie humana até o campo onde ela se encontrava em determinado momento. 

Mas estou certo de que “os nossos tempos”, “o tempo contemporâneo”, "a modernidade", no entanto, dependendo da disposição e formação dos sujeitos que um dia se derem ao trabalho de rascunhar os registros, entrarão para a História como a mais singular dentre todas as eras reduzidas a poeira disposta em finas camadas.

Basta ler as linhas que sucedem seja qual for o texto publicado na Web para comprovar a singularidade da sociedade que nos atura. Não que eu esteja recomendando o “estudo dos comentários da internet”. Não lançaria tal maldição. Igualmente não reunirei em quatro enciclopédicos volumes o imensurável conteúdo disponível. Mas creio ser possível concluir interessantes coisas a partir de uns poucos comentários que se repetem "teclados" por milhões e milhões de diferentes digitais.

Comecemos a pequena série homônima de posts, por um dos comentários mais comuns, presente em tudo quanto há textos publicados na Grande Rede. “O post é muito longo!”, “Parei de ler no título!”, “As primeiras palavras já serviram para que eu visse o tamanho da estupidez!”. 

Além de ver preguiça pura e simples, tal tipo de comentário me leva, à primeira vista (não leria os apontamentos até o fim, não por acreditar na “Lei de Talião”, mas devido à natural indisposição que cega às vistas conforme os olhos dançam pra lá e pra cá sobre as linhas), a acreditar em reflexo de uma absoluta insegurança quanto às próprias convicções. Medo de que o conteúdo não lido pudesse de alguma maneira abalar as crenças pessoais ou ferir irremediavelmente o orgulho de quem não lê. 

Afinal, vivemos na sociedade em que “manter nas alturas a autoestima”, é não apenas reiterado indefinidamente aos quatro cantos por dezenas de veículos, mas precisamente por isto, tornou-se dogma inquebrantável. 

O homem corporativo (“moderno”) carece ser simplificado ao máximo pelo sucesso do sistema. Autoestima elevada é igual a produção em alta-escala. O sacrifício não consiste na simplicidade da equação e sim em abrir mão das liberdades individuais. Sacrifício? Sequer se percebe a integridade escoar pelo ralo! Dá muito trabalho mudar as convicções a cada texto ou novidade com que se topa “apenas” para aperfeiçoar a substância que nos compõe. Autoconhecimento é zunzum besta propagado pelos malucos messiânicos da Nova Era! Portanto: foda-se! Que se massifique tudo como se todo elemento existente não passasse de objeto imóvel transportado sobre a esteira de uma fábrica de porcarias! Pouco importa!

Mas não creio se tratar somente de insegurança quanto à assertividade das próprias convicções. O dia-a-dia extremamente extenuante, corrido, cheio das mais diversas informações que nos chegam o tempo todo, realmente repercute dificuldade de concentração. Há inúmeros estudos que demonstram como o cérebro se adapta, quase que nos impossibilitando doar atenção a tarefas complexas, sobretudo àquelas que exijam empenho por períodos superiores a cinco minutos. 

Somando as coisas, entre outras, chegamos aos comentários daqueles que nunca leem os textos na íntegra, mas nem por isso deixariam de criticá-los. Não ajudam a mudar a conjuntura, porém, sentem-se no direito de exigir que se a mude. Não despertam de seu sono autômato, mas ai daquele que lhes apontar o abismo à frente. Viver com os olhos fechados é fácil! –, diz a canção. A Verdade não vale tanto quanto a ilusão de uma felicidade supostamente palpável. Simples assim!

Publicado originalmente no Noite e Dia

2 comentários:

V.H. de A. Barbosa disse...

Estou feliz com seu retorno.

Também sofro com essa maldição dos comentários. Mas é certo que eles me assolavam de maneira mais intensa antigamente. Hoje em dia, nem esse prazer me dão. Acho que o processo evoluiu para um próximo estágio. Ao invés de revelar a ignorância após análise das camadas, simplesmente passaram a se transformar em areia branca de praia: sem utilidade nenhuma.

Não tenho mais tantos comentários no blog. Acho que ficou ultrapassado escrever nestes espaços. Ler, refletir, admirar, transparecer. No meu caso, a agravante é que tal coisa ainda soaria como reconhecimento de que eu sou, de alguma maneira, especial, o que parece inconcebível aos olhos dos nada entendem das minhas linhas. E olha que nem pretendo sê-lo!

Enfim, dias melhores virão!

Gostei desse trecho:
"Não despertam de seu sono autômato, mas ai daquele que lhes apontar o abismo à frente. Viver com os olhos fechados é fácil! –, diz a canção. A Verdade não vale tanto quanto a ilusão de uma felicidade supostamente palpável. Simples assim!"

Daniel Ricardo Barbosa disse...

Fico eu feliz em voltar a receber os seus comentários! Eles nunca são areia branca, pode ter certeza. Abraço!