25 de mar de 2011

Releitura

Cena do filme "Tempos Modernos", by Charles Chaplin, 1936.

[...] John concorda com um gesto de cabeça, e eu prossigo.

– Na minha opinião, o homem de hoje não é intelectualmente superior ao antigo. Os quocientes de inteligência não mudaram tanto assim. Aqueles índios e as pessoas da Idade Média eram tão inteligentes como nós, só que viviam num contexto completamente diverso do nosso. Nesse contexto intelectual, os fantasmas e os espíritos são tão plausíveis quanto os átomos, as partículas, os fótons e os quanta são para o homem de hoje. Nesse sentido, eu acredito em fantasmas. O homem de hoje também tem os seus fantasmas e espíritos, não é?
– E quais são?
– Bom, as leis da física e da lógica... Os sistemas numéricos... O princípio de substituição algébrica. São os nossos fantasmas. Só que a gente tem uma fé tão grande neles, que eles parecem reais.
– Para mim, eles são bem reais – contesta John.
– Não estou entendendo nada – reclama Chris.
– Pois bem. Por exemplo, parece perfeitamente natural pressupor que a gravidade e a lei da gravidade existiam antes que Isaac Newton as descobrisse. Pareceria loucura pensar que até o século XVII não existiria gravidade.
– Claro!
– Então, qual a origem dessa lei? Teria ela sempre existido?
John franze o cenho, imaginando onde quero chegar.
– O que tenho em mente – digo eu – é a ideia de que antes que a Terra se formasse, antes que o sol e as estrelas surgissem, antes que qualquer outra coisa surgisse, a lei da gravidade já existia.
– É óbvio.
– Mesmo assim, parada ali, sem massa nem energia próprias, sem estar na cabeça de ninguém, porque ninguém existia, nem situada no espaço, porque também não havia espaço, parada ali no nada, ela ainda existia?

Agora John já não tem mais tanta certeza.

– Se a lei da gravidade já existisse, eu francamente não saberia quais as condições que as coisas deveriam atender para não existirem. Parece-me que a lei da gravidade passou por todos os testes possíveis de inexistência. Não se pode imaginar sequer uma propriedade de inexistência que não se aplique à lei da gravidade. Nem tampouco uma propriedade de existência que se aplique a ela. Ainda assim, todo mundo acha natural acreditar que ela já existia.
– É, acho que tenho de pensar melhor sobre o assunto – reconhece John.
– Bom, calculo que se você pensar bastante, depois de dar umas quinhentas mil voltas vai chegar a uma única conclusão possível, inteligente e racional: a lei da gravidade, e até mesmo a própria gravidade não existiam antes de Isaac Newton. Não existe conclusão mais coerente. E isso quer dizer – prossigo, antes que ele me interrompa – isso quer dizer que a lei da gravidade existe apenas nas nossas cabeças! É um fantasma! Ficamos derrubando os fantasmas dos outros, dando uma de arrogantes e presunçosos, mas somos tão ignorantes, primitivos e supersticiosos quanto eles.
– Então, por que é que todo mundo acredita na lei da gravidade?
– Hipnose em massa. Disfarçada sob uma forma bastante ortodoxa, chamada “educação!”.
– Quer dizer que você acha que o professor hipnotiza as crianças para elas acreditarem na lei da gravidade?
– Claro.
– Mas isso é ridículo.
– Já ouviu falar na importância do contato visual em sala de aula? Qualquer educador enfatiza isso, mas ninguém explica o porquê dessa importância.

John balança a cabeça e me serve mais uísque. Depois cobre a boca com uma das mãos, dirigindo a Sylvia um aparte irônico:

– Puxa, ele parecia tão normal o tempo todo...
[...]

[...]
Naquela noite eu disse a Chris que Fedro passara a vida inteira perseguindo um fantasma. É verdade. Era o fantasma inerente à tecnologia, a toda a ciência moderna, a todo o pensamento filosófico. O fantasma da própria racionalidade. Contei a Chris que ele tinha encontrado o fantasma e que o havia destruído. Creio que, num sentido figurado, isso é verdade. O que desejo revelar, à medida que prosseguimos, são algumas das coisas que ele descobriu. Agora os tempos são outros, e pode ser que alguém encontre nestas ideias alguma validade. Naquela época, ninguém via o fantasma perseguido por Fedro, mas creio que hoje cada vez mais pessoas o veem ou entreveem nos maus momentos, um fantasma que se denomina racionalidade, mas cuja aparência é de incoerência e falta de significado, fazendo com que a mais normal das ações cotidianas pareça meio despropositada, devido à sua total irrelevância em relação ao restante das coisas. Esse é o fantasma dos pressupostos normais de cada dia, que declaram que o objetivo final da vida, que é sobreviver, não pode ser alcançado, mas continua a ser o objetivo final, de qualquer maneira, e assim os grandes homens continuam a curar as doenças para que as pessoas possam viver por mais tempo. Só os loucos questionam isso. A gente vive mais para poder viver mais ainda. Não há outro objetivo. É o que diz o fantasma.
[...]


[...]
A formação de hipóteses é a fase mais misteriosa do método científico. De onde elas vêm, ninguém sabe. A pessoa está sentada num lugar qualquer, pensando na vida, e de repente – zás! – passa a entender uma coisa que não entendia antes. Até ser testada, a hipótese não é verdadeira, mas ela não provém de experiências. Origina-se em outro lugar. Disse Einstein:

“O homem tenta elaborar para si mesmo, do modo que melhor lhe pareça, uma descrição simplificada e inteligível do mundo. Depois, tenta até certo ponto substituir o mundo da experiência por esse universo por ele construído, para poder dominar toda a natureza... Ele faz desse universo e da sua construção o centro de sua vida emocional, para encontrar, assim, a paz e a serenidade que não consegue dentro dos limites a ele impostos pelo turbilhão da experiência pessoal. O objetivo último a ser atingido é chegar àquelas leis elementares universais a partir das quais o universo foi construído através de pura dedução. Não há um caminho lógico que conduza até essas leis; apenas a intuição, baseada no conhecimento afetivo da experiência, pode conduzir a elas...”

Intuição? Afetividade? Palavras estranhas para descrever a origem do conhecimento científico.

Alguém que fosse menos cientista que Einstein teria dito: “Mas o conhecimento científico vem da natureza. É a natureza que fornece as hipóteses.” Einstein, porém, sabia que não é assim. A natureza só fornece dados experimentais.
[...]

[...]
O rompimento de Fedro com o sistema lógico ocorreu quando, em consequência de algumas experiências de laboratório, ele se interessou pelas hipóteses como entidades em si mesmas. Ele já havia percebido várias vezes, no seu trabalho de laboratório, que o que poderia parecer a parte mais difícil do trabalho científico, a criação das hipóteses, era sempre a mais fácil. O simples ato de anotar formalmente tudo, com a maior precisão e clareza possíveis, já parecia sugerir as hipóteses.
[...]

[...]
No começo, ele achava aquilo divertido. Inventou até uma lei gozadora, no estilo das Leis de Parkinson, segundo a qual “o número de hipóteses racionais que podem explicar qualquer fenômeno dado é infinito”. (...) Foi só meses após ter criado essa lei que ele começou a ter algumas dúvidas sobre a graça ou utilidade que ela teria.

Se fosse verdadeira, a lei não detectaria uma simples escorregadela do raciocínio científico. Seria completamente niilista, uma catastrófica refutação lógica da validade geral de todo o método científico!

Se o propósito do método científico é selecionar uma dentre inúmeras hipóteses, e se o número de hipóteses cresce tão rápido que o método científico não pode controlá-las, fica claro que nunca se poderão testar todas as hipóteses; os resultado de qualquer experiência serão, portanto, incompletos, e o método científico inteiro deixa de alcançar o objetivo de estabelecer um saber comprovado.

Einstein comentou, a respeito, que “a evolução mostrou que a qualquer momento há sempre uma hipótese que se destaca, por ser nitidamente superior às outras”, e ficou por aí. Mas para Fedro, tal resposta não era ainda satisfatória. A frase “a qualquer momento” causou-lhe profundo impacto. Será que Einstein acreditava que a verdade era uma função do tempo? Afirmar isso seria o mesmo que arrasar o pressuposto mais básico de toda a ciência.

E, no entanto, isto se observa em toda a história da ciência, que é nitidamente uma sucessão de explicações sempre novas e mutáveis sobre os mesmos velhos fatos. (...) quanto mais hipóteses, menor o tempo de vida da verdade. E o que parece estar fazendo com que cresça o número de hipóteses nas últimas décadas é nada mais nada menos que o próprio método científico. Quanto mais se olha, mais se vê. Ao invés de selecionar uma verdade dentre uma quantidade de hipóteses, aumenta-se essa quantidade. Logicamente, isso significa que, ao se tentar alcançar a verdade imutável através da aplicação do método científico, não se realiza qualquer progresso. Pelo contrário, passamos a distanciar-nos dessa verdade!

Aquilo que Fedro observou a nível pessoal era um fenômeno bastante característico da história da ciência, omitido durante anos. Os resultados previstos da pesquisa científica e os resultados reais estão diametralmente opostos neste ponto, e ninguém parece prestar muita atenção a este fato. O objetivo do método científico é selecionar uma dada verdade dentre muitas verdades hipotéticas. A ciência consiste essencialmente nisso. Historicamente, porém, a ciência faz exatamente o contrário: através de um acúmulo descomunal de fatos, dados, teorias e hipóteses, é ela mesma quem está levando a humanidade das verdades únicas e absolutas para as verdades múltiplas e relativas. O principal gerador do caos social, da indecisão do pensamento e valores que o conhecimento racional se destina a eliminar é nada mais nada menos que a própria ciência. O que Fedro percebeu no isolamento do sei trabalho de laboratório há anos atrás é percebido agora em todas as partes do mundo tecnológico. Anticiência produzida cientificamente. Um verdadeiro caos.
[...]

[...]
Seu fracasso precoce o havia redimido de qualquer obrigação de pensar de acordo com qualquer linha institucionalizada e seus pensamentos já haviam alcançado um grau de independência que poucas pessoas atingem. Ele sentia que instituições como a escola, a igreja, o governo e organizações políticas de toda espécie tendiam a dirigir o pensamento para fins, em vez de para a verdade, para a perpetuação de suas próprias funções e para o controle dos indivíduos subordinados a essas funções.
[...]

(do livro "Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas", de Robert M. Pirsig, Paz e Terra, 1984.)

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