28/03/2011

do "Os Nomes na Máquina"

Jaci. Elizabeth Finholdt, 2009.

Jaci

Aos leitores cuja hipocondria não os induziu a uma pesquisa sobre o assunto em pauta; àqueles que não conhecem por não se dedicarem à medicina ou simplesmente não se interessarem por psicologia e/ou psiquiatria; aos amigos que não tiveram a oportunidade de participar de assembleias, palestras, enquetes a respeito do tema central das linhas abaixo subscritas, segue com singela dedicatória uma sucinta explanação.
Entende-se por Transtorno Bipolar o mal psicossomático outrora chamado de Psicose Maníaca-depressiva.
Trata-se de doença que pode acometer qualquer ser humano sem que ele sequer desconfie da enfermidade. O indivíduo que sofre de Transtorno Bipolar costuma atravessar períodos de extrema euforia. Não dorme durante noites seguidas. Percorre festas, apronta todas as presepadas possíveis, cativa os semelhantes com sua exultante, porém passageira simpatia.
A seguir, não mais que de repente, o enfermo entra num estado de profunda depressão. Não sai de casa, chora sem nenhum motivo em particular, tortura-se assistindo a uma reprise de Titanic ou Ghost. Pensa em suicídio como os políticos pensam em cifras e dígitos. Muitos bipolares chegam ao ato extremo de se matar, pois tudo se torna por demais intolerável. A simpatia do período eufórico transforma-se em irritante rabugice e as pessoas se afastam. Resta apenas a insuportável solidão.
Diante dessas breves informações, mas não querendo engrossar a fila dos hipocondríacos que tomam qualquer sentimento humano como um cárcere, rabisco a seguinte pergunta (e conto com a perspicaz ajuda dos leitores para chegar a alguma resposta): será possível que eu, Jaci Alex Max Rigoto, sofra de Transtorno Bipolar? Serei eu acometido pela citada enfermidade, porém, interagindo com o meu ser, tal doença adquiriu caracteres deveras singulares – sintomas que se diferenciam um bocado dos mal-fadados extremos do humor?
O problema é que respondo a mui semelhantes circunstâncias de distintíssimas maneiras. Não saberia explicar com todas as letras o que se passa comigo. Às vezes passo pelos acontecimentos com incrível competência. Aproveito ao máximo as situações para aprender e ensinar. Sucede uma troca para a qual a cordialidade quase sempre abre as portas.
Acredito firmemente que diálogos engrandecedores podem nascer do mais trivial cumprimento. Toda e qualquer circunstância é propícia para a troca de experiências pessoais. Sempre é possível escolher as frases mais convenientes em prol do aprendizado recíproco.
Contudo, em certas ocasiões parece que me esqueço de tudo em que acredito. Retorno à crueza dos tempos da infância, torno-me bufão, o cúmulo da irônica grosseria. Repito que perante a mesma deixa sou capaz de responder com teores completamente distintos, opostos, paradoxais. Resposta tipicamente bipolar.
A adversidade de minhas intervenções (ou seria melhor dizer bipolaridade?) se manifesta maiormente, quando o assunto discutido entre amigos envolve temas de interesse geral. Então vacilo entre a brandura didática e a explosão de ódio.
Às vezes os pensamentos que passam pela minha cabeça são como o vento forte a entoar sua amena canção. Tais pensamentos parecem querer me levar como o vento parece querer. Mergulho na sensação de estar voando suavemente para bem longe, e já posso vislumbrar belíssimas e inusitadas paisagens, que me esperam e anseiam.
A branda conjuntura acima exposta faz com que as palavras fluam por meus lábios com natural cordialidade. Elas contribuem para a relevância do diálogo e conquistam o respeito e admiração dos ouvintes.
Caso o assunto em debate, por exemplo, seja a crescente violência e criminalidade no mundo moderno, explico habilmente que de nada adianta se concentrar apenas em combater o crime em si. Melhor seria lidar com as causas que levam as pessoas a praticá-lo. Senão corremos o risco de um dia o número de indivíduos condenados e encarcerados vir a ser maior do que o dígito a apontar a população a caminhar por aí.
Obviamente é o momento em que sempre surge alguém para inserir certos conceitos retrógrados. Pena de morte ou coisas desse tipo. Ainda assim, no entanto, o meu rompante de cordial retórica volta à carga. Pacientemente demonstro que o líquido aplicado na veia do condenado, a eletricidade descarregada em seu corpo, qualquer elemento que venha a compor a mórbida encenação, são patrocinados pelos impostos que a população é obrigada a pagar. Completo o raciocínio dizendo com toda a calma que quem paga para matar é tão assassino quanto o carrasco que puxa o gatilho.
Outras vezes, no entanto, quando o limite entre os “extremos bipolares” é rompido, o ímpeto ao sarcasmo se apossa de minhas ideias e reações. Habilidade, paciência, calma..., parecem não fazer sentido. Então os pensamentos não são como o vento forte entoando amena canção. São como um território há vários meses castigado por seca sem precedentes.
Nenhuma nuvem conseguira romper os céus cada vez mais empoeirados. Acumulara-se fumaça de máquinas, chaminés, queimadas. O ar pesado irritara a garganta, sufocara os pulmões, derramara-se nas veias e apossara-se do coração.
Coração poluído, cansado, combalido. Sua verdadeira natureza não é a ferrugem. Talvez amor seja a palavra mais apropriada. Amor em essência e não o produto que se vende nos programas e anúncios da TV. Amor verdadeiro e fluído e onipresente, que diz respeito diretamente à compreensão.
Subitamente essa natureza do coração é subjugada sob camadas espessas. Coração é livre mas se sente preso. Parece querer parar de bater. Deseja apenas inexistir. Pede socorro em silêncio e por fim pulsa revolta. Impulsiona o meu lado obscuro. Qualquer estalar de dedos é o suficiente para que dê vazão a respostas das quais ninguém sentiria orgulho.
“Pena de morte como nós a conhecemos? Você tem muito pouca imaginação! Use a inteligência! Cadeira elétrica, injeção letal, pelotão de fuzilamento, forca, câmara de gás? Hoje em dia os criminosos não temem esse tipo de punição. Muitos deles se deparam com circunstâncias bem mais chocantes antes mesmo do café da manhã. Estamos mais do que acostumados com a morte alheia. Ela não nos importa ou diverte mais. Não há temor ou beleza! Precisamos de algum requinte que a caracterize, senão não lhe damos atenção. Precisamos inovar no “quesito” execução! Sejamos criativos! Vamos inovar instituindo o esquartejamento como método! Começaremos por arrancar as unhas e decepar os dedos dos condenados. Usaremos soluções químicas que mantenham os bandidos acordados durante as torturas com ferro em brasa. O criminoso tem que estar desperto e olhando em nossos olhos enquanto estivermos extraindo os seus dentes com o alicate. Desperto quando rasgarmos as suas orelhas. Acordado enquanto dilaceramos o pênis, os testículos, os seios, o clitóris... Acabaremos com a criminalidade despedaçando marginais e a sociedade não será obrigada nem ao menos a se preocupar com os despojos dos infelizes. A porcaria toda não compartilhará espaço com os defuntos dos cidadãos de bem. Consumiremos os pedacinhos com a colaboração tecnológica dos melhores cientistas e inventores. Ou então podemos contratar o apoio dos maiores nutricionistas do mundo. Cozinharemos os restos dos criminosos no feijão e cobraremos caríssimo pelo prato! Ou talvez fosse melhor darmos uma de filantropos a fim de acabar com a fome do mundo! Feijão com miúdos... Ensopado de carne humana... Hum!, que delícia!”
O espanto e o silêncio em que os ouvintes são imersos – mergulho vertiginoso e sem retorno incólume numa profundidade que aumentava conforme se dava o suceder das minhas palavras; e que, no exato instante da conclusão das ditas ironias, atingira o âmago de um negro mar de sensações inéditas e paradoxais – sempre me impõem a dúvida se eu não sofro mesmo de Transtorno Bipolar.
Sei que pessoas diferentes exigem respostas diferentes sobre a mesma verdade. Sei que palavras macias não convencem quem não conhece a suavidade. Sei que é inútil mostrar belas paisagens a quem tem os olhos vendados. Contudo, eu gostaria de ser mais constante. Devo mesmo sofrer de um distúrbio qualquer.
Talvez eu devesse me conformar com a enfermidade e procurar tratamento médico. Conformar-me com a multidão sonâmbula que se vê por aí. Conformar-me com as passageiras, porém persistentes limitações dos seres humanos. Conformar-me com a inércia e hipocrisia generalizada. Conformar-me com a verdade sobre o falho caráter humano. Conformar-me com o comodismo e a passiva burrice. Conformar-se com...

(texto e ilustração que o segue do livro de contos de minha autoria intitulado "Os Nomes na Máquina". Editoras Hemisfério Sul e Canto Escuro. 2009.)

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