27 de nov de 2010

Ensinamento Prático Para Perfeitos Escravos


[...] Castro morrera pensando no passado com uma incrível lucidez. Lembrou-se nitidamente desde a sua mais tenra infância, a adolescência, a fase adulta, a velhice, até os instantes imemoriais... “Será que todos os seres humanos um dia se lembrarão com saudades de cada momento vivido?”, perguntou Castro. Ele concluiu que todos os momentos vividos eram válidos e mereciam saudades.

Castro lembrou-se dos avós, com os quais só partilhara momentos através das histórias moldadas pela serena voz da mãe, ou mesmo pela indefinível voz do pai. Ele pensou nos próprios pai e mãe e se surpreendeu agradecendo. Fora muito bom viver ao lado deles. Também teria sido muito bom ter tido primos, tios e tias, outros parentes, mais amigos; irmãos para implicar, brigar, brincar, sorrir, amar, viver...

Castro sentiu saudades da casa cheia de gente. Sentiu saudades dos móveis cheios de objetos espalhados. Coisas fora do lugar, coisas fora do eixo. Cadeiras ocupadas, sofás ocupados, camas ocupadas. Saudades até mesmo dos últimos anos em que a solidão se impregnara do barulho da bengala a auxiliar-lhe os passos tocando vacilante a madeira do assoalho.

Eram os defeitos e virtudes das pessoas que movimentavam a vida. E todos os momentos movimentados valiam a pena. Todas as pessoas encheram a sua vida de sentido. Ele próprio, com o seu jeito todo particular de movimentar a vida, o seu mundo particular, era uma réplica em miniatura do que se passava pelo planeta. Uma só família espalhada pela Terra. Uma só família vivendo os mesmos extremos. Tantos e tão semelhantes extremos, cada um valendo a pena, cada um passivo de saudades.

Era muito fácil amar todas as pessoas. Castro se perguntava como fora possível não perceber antes! Ele sabia que estava morrendo e desejava voltar para dizer ao mundo. Talvez um retorno fosse tão possível quanto era desejável. Era até mesmo lógico! Seria bom ter infinitas oportunidades de dizer aos irmãos em cada canto do planeta as coisas boas que se descobre subitamente. E dizê-las nas amenas circunstâncias de um monótono “paraíso” no mínimo seria menos meritório.

Muita gente acreditava na necessidade do desejável retorno. E se ele realmente existisse, corroborando a beleza do movimento e contrariando o tédio do repouso eterno, Castro quereria poder voltar tendo os mesmos pais, parentes, amigos; mesma humanidade. Por mais que soubesse que os momentos seriam muito ou um pouco diferentes, ele queria todos de volta para si, pois qualquer momento a se guardar na memória um dia será lembrado com saudades.

Era muito fácil amar as pessoas e Castro desejava poder regressar, a fim de lutar por elas e dizer a quem tem tempo: “Lute!”. Ele queria lutar para que apenas os defeitos e virtudes movimentassem a vida e nenhuma outra circunstância ou força delimitasse e coagisse o movimento. Nenhuma outra circunstância limitadora e condicionante.

Castro morreu com a mente cheia de pensamentos engrandecedores. Pois todas as lembranças são boas porque todas as conclusões a que se chega através delas são úteis. Tanto o suor quanto o orvalho servem para regar e dar vida às flores. Emergencial estava com os olhos e o rosto úmidos de lágrimas não por estar morrendo sufocado. Eram lágrimas que saíam naturalmente agradecidas.

Elas agradeciam ao mundo por tantas oportunidades. Agradeciam às árvores, que partilharam do mesmo ar carregado dos mais diversos elementos, e possibilitaram a vida. Aos animais que se sacrificaram para doar o alimento e de várias maneiras também movimentaram a vida, aprendendo o seu aprendizado. Ao sol que iluminara o caminho e secara o rosto. Ao vento que desmanchara os cabelos, aliviara o peso de uma caminhada, enchera os olhos de poeira...

Emergencial estava agradecido a tudo e a todos. Deles dependiam as circunstâncias perfeitas para que ele chegasse a qualquer conclusão. Estava agradecido porque todos tinham a mesma capacidade de concluir, compreender, amar. A vida era realmente bela e Castro a amava integralmente. Amava a tudo e a todos e morreu com o coração tranqüilo, embora cheio de saudades. [...]”

(trecho do livro de minha autoria, Elo, Entrelinhas & Alucinações, Editoras Canto Escuro e O Clássico, 2008.)

Um comentário:

V.H. de A. Barbosa disse...

Livro o qual o senhor obviamente guardará uma cópia para mim.

Tenho lido coisas tão chatas. Fiquei intrigado com seu texto, quero ler o livro!