25 de out de 2010

O Estranho Mundo das Floriculturas

Girl and bird, by Brenda York.

[...] Lembrei da floricultura do velho mercado. Era algo profissional, com flores espalhadas por corredores, empilhadas, atulhadas umas aos lados das outras. Aquela floricultura obviamente teria o girassol. Provavelmente todas as flores desejavam estar naquela floricultura. Ser vendida ali com toda a certeza lhes traria um destino proveitoso: um amor conquistado, um feliz aniversário realmente feliz, uma condolência honrosa. O girassol estaria ali para atender meus intentos.

E estava. Eram logo cinco girassois disputando minha atenção. Escolhi o mais vistoso, o mais vaidoso, aquele que mais agradaria a garota. Mandei entregar. Paguei.

Ao meu lado, enquanto guardava o troco, notei mais um jovem rapaz. Escrevia uma carta. Provavelmente uma carta de amor. Ele me olhou de esguelha e sorriu.

“O grande Victor Hugo. Há tempos queremos conhecê-lo…”, disse num tom cordial.

Suspeitei.

“Como você sabe meu nome?”.
“Sabemos tudo sobre você. Onde mora, com quem fala, para quem escreve suas cartas de amor”.
“Quem é você?!”, indaguei já nervoso.
“Vamos lá fora”.

Puxou-me pelo braço, percorrendo os corredores tortos daquele mercado velho, onde fogões idosos se empilhavam sobre mercadorias tão velhas quanto, onde condimentos, bebidas e artigos de decoração estavam lado a lado, disputando atenção dos bolsos com dinheiro, onde caixas velhas serviam de bancos e mesas, onde o café era de um negror já esquecido. Puxou-me pela história.

Chegamos do lado de fora, onde a claridade ofuscou minhas retinas.

Quando me acostumei à luz, percebi que ao meu redor estavam os rapazes das floriculturas pelas quais tinha procurado frustradamente o girassol. Além de mais dez outros homens.

“Oh que bom, ele está aqui!”, comentaram entre si.
“Expliquem o que é isso, por favor”, exigi.
“Victor, somos um grupo muito restrito. Temos o observado e chegamos à conclusão de que talvez você queira se juntar a nós”.
“E do que se trata?”, perguntei curioso.
“Todos nós nos conhecemos em floriculturas, ou cafeterias, ou parques, ou joalherias. Em algum momento da vida, nos conhecemos enquanto gostávamos de alguém, nos reconhecemos pois éramos pessoas apaixonadas, em busca de uma pessoa. Nos reunimos para trocar experiências, dicas, para conhecer novas paixões. Não temos a hipocrisia de afirmar que vivemos por sucesso profissional ou por ideologias. Vivemos apenas pela paixão”, explicou um deles.

E prosseguiram:

“O C. aqui, presenteava suas amantes com colares lindíssimos, nos explicou tudo sobre jóias e o que elas mais adoram. O F. era um exímio conquistador, de uma cafeteria ou uma doceria, já conseguia emendar um motel, vai aprender muito com ele. O T. ali escreveu poemas lindíssimos sob a sombra de ipês, e suas mulheres se derretiam com suas doces palavras”. [...]

(da autoria e gentil colaboração do Victor Hugo de Araújo Barbosa, sendo que a íntegra do texto se encontra publicada no blog Zaratustra Tem Que Morrer.)

Um comentário:

V.H. de A. Barbosa disse...

"Brenda York, Girl and bird."

Parece até que você adivinha que o primeiro livro do qual me recordo ter lido se chama "A menina e o pássaro encantado", cujo ideal persegue minha escrita até hoje e provavelmente até amanhã e depois.

Acho estranho que você me cite aqui, quando na verdade sou eu que tenho muito a aprender com você, amigo Daniel!

Abraço.