29 de set de 2010

Amélia Earhart Invertida

Odalisque with a Slave, by  Jean Auguste Dominique Ingres.

Um dia tu te queixaste em silêncio: “café, cafuné, café, cafuné...”, como se estas fossem as únicas preocupações, a nortearem quaisquer passos. E, realmente, em algum momento, devo ter dado a entender que acreditava em tal coisa. Passaram-se os anos...

Hoje, a minha própria voz exige que eu faça em silêncio, o que se minhas mãos não tomassem a incumbência para si, penso que não seria nunca feito.

Comprar mantimentos, ir à farmácia, cuidar do gato, lavar as roupas, lavar as louças, manter-me disponível para quando chegares e quiseres abraço, pagar contas no banco, arrumar cama, fazer a cama, cuidar das plantas, fazer o jantar, botar o café sobre a mesa, tentar dormir às zero horas e acordar seis e trinta a fim de acompanhar o seu horário, silenciar-me, tornar-me mudo de corpo e alma, e$crever, e$crever, e$crever... nunca os meus próprios escritos!

Cuidar de anúncios, manter em dia contatos, manter limpa a mesa, manter-me saudável, razoavelmente vistoso, para que eu não a envergonhe ou aos seus aliados (aliados são estes a querem por perto por conveniência?), um desconhecido a parar de fumar, não tocar lábios em álcool, acompanhá-la em festas, deixá-la ir onde quiser ir só, eu só, a e$crever, e$crever, e$crever... nunca o meu próprio epitáfio!

Suster o que falta, manter o pau em repouso, manter-me calado.

“Limpe o chão! Por que não varro o piso e esfrego o banheiro?”, pergunto-me. “Oh!, piso e banheiro deixo para depois!”, respondo. As caixas ali cheias de minhas coisas: depois! As minhas expectativas: depois! Os meus gritos: jamais!

Ah!, tudo pela grandeza de um simples olhar seu que remeta carinho – ou dois, ou três – ao longo de um dia! Pelo café ligeiro em sua companhia! Pelo almoço de micro-ondas e instantâneo em que você quase se faz presente! Pelo cafuné breve de sono e logo dormes! Pelo afago que só às vezes acontece ou que o sono pesado de pesadelos e cansaço não me deixa sentir!

Vá bem, volte logo, bem, boa noite! E se me disser “eu te amo”, alheia, alegre, generosa, ganho o prêmio! E se se junta a um olhar, e me sobra um carinho, as minhas queixas se calam, a minha revolta se cala, silencio-me até emudecer de novo! Como se tendo o meu quinhão, nunca houvera razão para clamores!

Até que uma nova explosão me delegue novas culpas a que redimir e tudo se inverta! Até outra nova rara entrega sem gosto o corpo, até outra mesma esmola, até o dia em que as lágrimas me sufoquem e eu não mais acorde para ouvir o seu “bom dia”.

Neste dia... não sei o que farás, então... eu... eu, bem... não farei absolutamente nada. Algo novo!

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