29 de set de 2010

Colcha de Retalhos


by Jan Saudek, 2002.

Olho pela fresta da cortina o movimento da rua. Ali, longe onde as vistas alcançam, alço voo. Alcanço com pensamentos o tartamudear do vazio. Será que ela vem chegando? Será que ela vem chegando? 

Não ouço passos. O vento bate no portão e quase entoa um Lá. Lá, na esquina, ninguém surge. Há nuvens, as sombras proliferam. O silêncio pode ser prolífero, mas a vida é maior. E os sonhos espreitam tímidos a ansiedade tomar o cedilha da esperança.

Olho pela janela, agora escancarada, flores ao lado, vermelhas e amarelas, parapeito, fios que desvirtuam paralelas. Olho tudo, não avisto nada, suspiro. Estou cego, agora, a partida é o limite no horizonte. A cor cinza inspira desamor. O azul cintila o clamor do desafogo. O verde, ah!, não seria sensato! Fiquemos onde estamos, pairemos naquelas águas a arrastarem a sujeira dos ratos, tornemo-nos desconhecidos, longínquos, errantes.

Olhe a tez: suada. Veja, o mundo, é algo que pode justificar. A tristeza, o pote, a gota. Quisera enxergar a ampulheta, deixe estar, a punheta – o laço frágil de cetim que nunca fora desfeito e será quebrado. Bote fogo nos papéis, deixe descer pelo esgoto lágrimas que não valem a pena, deixe tudo ruir: o prédio, a rua, a janela, os sonhos, os planos, o mundo, a vida. Deixe-nos ruir! Ranger dentes seja lá o que isto for – vaidade.

2 comentários:

V.H. de A. Barbosa disse...

Frustração?

Daniel Ricardo Barbosa disse...

Sim, sim! Creio que para interpretar a série de posts "Palaras Quem Quer Ouvi-las", onde me proponho a escrever sobre alguns estados daqueles que se sentem amando, tenho recorrido a alguma frustração pessoal, mesmo que longínqua ou não! (como diria o Caetano em seu bordão tão desastrado), mas também a alegrias! ehehehe...
Abraço!