16 de ago de 2010

Os Cadernos de Malte Laurids Brigge

Self Portrait With Masks, by James Ensor, 1899.

I

“[...] Aprendo a ver. Não sei a razão, tudo cala mais fundo em mim e não se detém onde sempre costumava se extinguir. Tenho um âmago que desconhecia. Tudo deságua nele, agora. Não sei o que se passa lá.

Hoje escrevi uma carta, e, ao fazê-lo, me ocorreu que faz apenas três semanas que estou aqui. Três semanas em outro lugar – no campo, por exemplo – poderiam ser como um dia; aqui, são anos. Não quero mais escrever cartas. Por que deveria dizer a alguém que estou me modificando? Se me modifico, deixo de ser aquele que era e passo a ser algo diferente do que até agora fui, e então é evidente que deixo de ter conhecidos. E a pessoas estranhas, a pessoas que não me conhecem, é impossível escrever. [...]”


II


“[...] Eu nunca tinha percebido, por exemplo, que existiam tantos rostos. Há um número imenso de pessoas, mas o número de rostos é muito maior, pois cada uma delas possui vários. Há pessoas que ostentam um rosto por anos a fio, e, obviamente, ele se gasta, fica sujo, rompe-se nos vincos, alarga-se como as luvas que usamos durante a viagem. São pessoas parcimoniosas, simples; não o trocam, nem sequer mandam limpá-lo. Esse é bom o bastante, dizem elas, e quem poderá lhes provar o contrário? Pergunta-se, todavia, visto que possuem vários rostos: o que fazem com os outros? Elas os guardam. Seus filhos devem usá-los. Mas também acontece de seus cães saírem com eles por aí. E por que não? Rosto é rosto.

Outras pessoas trocam os seus rostos extraordinariamente depressa, um após o outro, e os gastam pelo uso. Parece-lhes, de início, que os teriam para sempre, porém, mal chegam aos quarenta, e eis o último. Isso tem, é claro, a sua tragicidade. Elas não estão acostumadas a poupar rostos, o último se gastou em oito dias, tem buracos, está fino como papel em muitas partes, e então, pouco a pouco, revela o que há por detrás dele, o não-rosto, e elas andam com esse não-rosto por aí.

Mas a mulher, a mulher: ela tinha caído inteiramente em si mesma, em suas mãos, diante de si. Foi na esquina da Rue Notre-Dame-des-Champs. Tão logo a vi, comecei a andar sem ruído. Quando pessoas pobres refletem, não se deve perturbá-las. Talvez lhes ocorra alguma idéia.

A rua estava vazia demais, o seu vazio se aborrecia, tomou o passo debaixo de meus pés e bateu com ele em volta, lá e aqui, como se fosse um tamanco. A mulher se assustou e emergiu de si mesma, de modo rápido demais, brusco demais, de tal maneira que o rosto ficou nas duas mãos. Pude ver como jazia nelas, sua forma côncava. Custou-me um esforço indescritível deter-me nessas mãos e não olhar para o que tinha sido arrancado. Apavorei-me de ver um rosto por dentro, mas tive ainda mais medo da cabeça sem rosto, despida e esfolada. [...]”


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