1 de jun de 2010

Sem Fronteiras


Israel consuma crime de guerra à luz do Direito Internacional.

1. Nada aconteceu por acaso. Faz duas semanas que o assunto, em todos os cantos de Israel, era a chegada de algumas embarcações turcas, com partida pelo porto de Chipre, trazendo auxílio humanitário à Faixa de Gaza e, a bordo, o xeque Raed Salah, líder islâmico da comunidade árabe-israelense. Raed Salah, por sorte, está vivo e a sua morte, seguramente, levaria a uma nova intifada. O ataque promovido por Israel em águas internacionais e a vitimar passageiros de embarcações que não tinham propósitos bélicos, mas humanitários, caracteriza crime de guerra, à luz do Direito Internacional. Além, evidentemente, de estupidez de matriz nazifascista.

2. No Direito Internacional aquele (Israel) que toma a iniciativa de um ataque não pode alegar atuação em legítima defesa. Além da iniciativa, o ataque foi desproporcional. Por outro lado, havia outra forma de promover uma blitz nas embarcações, para verificar sobre eventual transporte de armamentos e presença de terroristas. A mera presença nas embarcações de representantes de uma organização não governamental (IHH- de solidariedade a palestinos em face do desumano bloqueio imposto na Faixa de Gaza) descaracteriza situação de legítima defesa. Caracteriza, isto sim, intolerância e injusta agressão. Na verdade, um estúpido ataque noturno que coloriu o mar de cor de sangue.

3. Todo mês o governo direitista do premiê Netanyahu — que conquistou o poder graças a uma união com extremistas e levou para a pasta de relações internacionais um irracional que já prometeu afogar todos os egípcios — mostra à comunidade internacional como se pratica terrorismo de Estado. Mais uma vez, Israel promoveu terrorismo de Estado. Quando da visita do vice-presidente norte-americano a Israel, o premiê Netanyahu fez a provocação ao anunciar a construção de casas populares em área ocupada militarmente em Jerusalém Leste. O professor Noam Chomsky, notável e respeitável professor de universidade norte-americana, foi detido e submetido a interrogatório humilhante. Isto por ter entrado em Israel depois de uma visita à Jordânia. Chomsky, por evidente, não é nenhum terrorista. Sua única arma é a escrita e a sua força decorre do prestigio das suas obras e artigos. Poucos dias atrás, o ultranacionalista Avigdor Lieberman recebeu a visita do embaixador turco (até então país amigo e distante do conflito) e o humilhou: colocou a cadeira do convidado em nível bem abaixo da sua e arrancou do gabinete a bandeira da Turquia, na frente do visitante. Avigdor Lieberman tem uma mente tortuosa. Ele já virou notícia por ter, antes de assumir o cargo, viajado à Bielo-Rússia para se aconselhar com o ditador Aleksandr Lukashenko. O ultranacionalista Avigdor, nascido Evet Lieberman, apelidado Yvette ou Leonid, tornou-se, pelo seu partido Yisrael Beiteinu (Nossa Casa Israel), o fiel da balança na formação do novo governo israelita. Aos 51 anos e nascido na então república soviética da Moldávia, Lieberman conseguiu 1 milhão de votos de imigrantes russos e seu partido conquistou 15 cadeiras no Parlamento, transformando-se no terceiro maior. Avigdor deixou a Moldávia em 1978 e, em trinta anos de Israel, apesar das denúncias de corrupção e de uma filha acusada de fraudes fiscais, integrou o gabinete do premiê Ehud Olmert (anterior a Netanyahu e marcado pela corrupção), num decorativo Ministério de Ações a Longo Prazo. Algumas frases desse fanático de turno são preocupantes. 1 Devemos mandar o Hamas para o paraíso. 2 Vamos bombardear a represa de Assuã para inundar o Egito. 3 Precisamos fazer em Gaza aquilo feito por Putin na Chechênia. 4 Abu Mazen é um incompetente.

4. Israel não aceita a jurisdição do Tribunal Penal Internacional criado pelo Tratado de Roma e com competência para julgar crimes de guerra, contra a humanidade e genocídios. Como o país integra as Nações Unidas, espera-se que o Conselho de Segurança imponha sanções pelo mar de sangue que acabou de promover e cujo número de mortos está, até agora, estimado em dez.

5. A esquerda israelense, que afundou nas últimas eleições — o Meretz (pacifistas) teve de torcer pelo Kadima (centro-direita) e os trabalhistas perderam representatividade —, se fortaleceu depois do covarde ataque às embarcações humanitárias dispostas a furar pacificamente o absurdo bloqueio imposto a Gaza. Já se fala e se exige a queda do premiê Netanyahu e de todo o seu gabinete, por consequência.

6. Israel, que não tem uma Constituição escrita e mantida a direita extremista no poder do Estado hebreu, certamente, continuará a indignar os que lutam pelo respeito aos direitos naturais do ser humano.


(crônica e gentil colaboração de Wálter Fanganiello Maierovitch, publicada originalmente no Portal Terra.)


Algumas Palavras


Lembro-me perfeitamente da grata surpresa que tive aos 13 anos, quando a minha mãe foi sorteada em determinado concurso, cuja premiação constituía uma coleção de livros sobre arqueologia. Na época eu ainda estava nos primeiros tempos de fascínio pela leitura. Embora preferisse os clássicos juvenis de aventura – Jack London, Coleção Vaga-Lume, Monteiro Lobato, Alexandre Dumas –, qualquer novidade literária era acolhida por mim com grande prazer.

Cada livro daquela coleção abordava determinada civilização antiga. Suméria, Grécia do Paternon, Astecas, Maias, Incas. Eram doze os volumes e a memória não guardou o âmbito dos demais livros. Confesso que a linguagem essencialmente didática dos textos não me agradou, colaborando para que eu não tenha memorizado todos os títulos, mas jamais me esqueceria dos quatro livros que eram ofertados como complemento à coleção.

O que primeiro chamou a minha atenção nos volumes complementares, foi a capa em lona vermelha, enquanto o dourado imperava nos livros de arqueologia. Em segundo lugar, aquele símbolo desconhecido – viria a saber a sua denominação pouco tempo depois: suástica – intrigava-me. Os livros: Os Manequins Nus, Os 186 Degraus, Médicos Malditos, O Julgamento de Nuremberg.

Li aqueles quatro livros em poucas semanas. Foram agente de emoções profundas e tão grande impacto que até hoje, ao fechar os olhos e puxar pela memória, lembro-me de grandes trechos, bem como das fotografias presentes no fim de cada capítulo. Sentia várias coisas após a leitura. Talvez a vergonha tenha sido o sentimento que sobressaiu. Envergonhava-me saber que no mesmo século em que eu nasci ocorrera massacre de tais proporções.

Impressionava-me saber que mesmo aqueles que libertaram os prisioneiros dos campos de concentração, livrara os sobreviventes das celas como quem cumpre desagradável obrigação.

Quis descobrir o motivo para que aquele povo tivesse sido tão maltratado. Hoje sei que não são necessários motivos muito fortes para que se pratique a degradação, mas li bastante sobre a História e Cultura daquele povo. Passei a respeitá-lo.

Trata-se do mesmo respeito que sinto por todos os povos. Respeito que surge indiferente a posições políticas, religiosas, filosóficas, ligado a convicção mais simples nascida da observação e biologia: somos uma só família chamada humanidade espalhada pela Terra.

Convicção esta que me leva a sentir ainda mais revoltado ao me deparar com atos tresloucados de politicagem. Revoltado quando vejo que ainda se mata buscando unicamente dar vazão e resguardo aos interesses de tão poucos. Interesses estritamente mercantilistas, eu diria.

Ao darem vazão aos seus atos de politicagem e interesses mercantilistas, os poucos que regem o mundo, e se sentem seus donos, incitam as diferenças, dando supostos argumentos àqueles que já eram preconceituosos. O preconceito, portanto, encontra prerrogativas para se perpetuar. Espalha-se como erva daninha e compromete uma primavera que nunca mais chega.

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