16 de jun de 2010

Quem Tem Medo da Vizinha Míope?

Pintor Miope (La excuse de l'artiste), Pierre Subleyras, 1746.

Aldous Huxley, em seu “O Gênio e a Deusa” (Civilização Brasileira, 1963), dizia que a literatura de ficção jamais seria o perfeito espelho da vida. Segundo ele, o romance faz sentido, enquanto a vida nenhum sentido faz. Concordo com o Huxley, mas durante anos este seu pensamento me perseguiu. Afinal, a ficção é o “lugar” onde mais me sinto confortável, sobretudo para abordar as questões e estranhamentos que me surgem à mente.

Mesmo não vendo qualidades em minha prosa, durante muito tempo desejei provar a mim mesmo que Aldous Huxley estava enganado! Procurei, escavei, mergulhei. Não consegui encontrar a personagem perfeita, que se aproximasse ao máximo da realidade; uma personagem tão sem sentido, que a  linha a separá-la entre o mundo concreto e a ficção, fosse quase imperceptível. 

Depois de tantos anos e buscas, quando estava prestes a desistir, eis que surge ela, a personagem perfeita – embora estivesse sempre à espreita –, saída da realidade para a ficção: a minha Vizinha Míope.

Sei que cada pessoa saberá apontar a sua própria Vizinha Míope a lhe espreitar os passos e tecer comentários agradabilíssimos. É para a minha Vizinha Míope, no entanto, que dedico estas linhas. Por favor, não as tomem de mim!

Ah!, Vizinha Míope que observa das janelas do mundo!  Posso tentar me convencer de que escrevo para o meu deleite, desafogo, arroubo. Posso me enganar afirmando que escrevo para entretenimento, questionamento ou tédio dos leitores, porém, Vizinha Míope, sempre a esquecer os seus óculos pelos cantos da casa, sua imagem é que me vem à mente quando me sento na cadeira com lápis em mãos. É por você que escrevo!

O que dirá a minha Vizinha Míope? Gostará deste texto? Preferirá o outro? E se escrevê-los desta ou daquela maneira? Agradará à Vizinha Míope uma poesia ou estará ela com bons olhos para a prosa? Qual estilo é o seu preferido? Ou preferirá estilo algum?

Ah!, Vizinha Míope, quando me dou conta de que as linhas continuam em branco e o peso no peito ainda grita por liberdade, não mais vacilo. Digo: dane-se Vizinha Míope! É justamente para contrariá-la que eu escreverei!

Não adianta derramar lágrimas, debruçar-se melhor na janela para apontar o palavrão que eu dissera, agitar a língua incansavelmente em direção ao céu da boca, mover os dedos na velocidade que a artrite lhe permite – como um polvo reumático a escorregar na baba do tubarão no fundo do mar! Nada disso mudaria a minha resolução! O seu desgosto, Vizinha Míope, é o meu prazer!

Sei que clamas por justiça aos quatro ventos, desejosa de que eu nunca mais risque palavras sobre o papel, mas se o faz, Vizinha Míope, sei agora! É porque me amas e me queres só para ti!

4 comentários:

Klatuu o embuçado disse...

Saramago faleceu hoje.
Abraço!

Daniel Ricardo Barbosa disse...

Imensurável a desolação que se sente... faltam palavras... literalmente...

V.H. de A. Barbosa disse...

Não há cirurgia corretiva que dê conta de Vizinhas Míopes. Esses seres tão apegados aos seus conceitos e métodos, incapazes de distinguir a realidade ocorrendo a um palmo de seus olhos.

Milan Kundera em seu livro A Imortalidade aborda uma personagem que, mal entrando nos locais, já se põe a anunciar suas preferências, sua personalidade, suas idiossincrasias. Com isso, já deixa o mundo saber, de antemão, suas limitações, suas fronteiras, numa tentativa vã de se diferenciar do resto do mundo, de tentar se sentir única.

A Vizinha Míope é igual. Critica pois é incapaz de compreender o outro. Pragueja pois nunca aprendeu a aceitar o outro. Contraria porque o novo lhe é uma ameaça.

Meu amigo Daniel, faz bem de mandar se danar a Vizinha Míope!

(Me diga depois se você possui orkut ou msn, é uma maneira mais fácil de trocarmos ideias!)

Sinopse do Livro disse...

Olá,

Estávamos vagando pela grande rede e apreciamos bastante o seu blog.
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