29 de abr de 2010

Rótulos

Seriam os rótulos o único legado do artista? A cada par de passos, a cada interpretação dos estranhamentos registrada em verbos, substantivos, adjetivos, ouço rumores: ateu, cristão, anti-cristo, satanista, vagabundo, workaholic, comunista, capitalista, niilista, anarquista, pessimista, positivista, hippie, yuppie, beatnik, naturalista, nudista, exorcista, bruxo, místico, cético, agnóstico, metafísico, cientologista, zen-budista, dionísio, hades, infomaníaco, bipolar, realista, sonhador, utopista...

Sei que há vários rótulos que a memória deixou escapar, muitos outros ainda hão de surgir. Creio que nem a terra há de devorá-los junto ao corpo que um dia tomará de volta.

Só atingido por balas de metralhadora deixaria esmorecer a minha voz. Rótulos passam por mim como o vento atua sobre meus dedos e os move quando já não há mais forças para empunhar a caneta. Só eu conheço o meu inexistir único.

Perante o ato de rotular, sempre me lembro de determinado pensamento de Lao Tzé, cuja citação pode vir até mesmo a repercutir outros rótulos:

“Através de uma brecha na porta se tem visão restrita. Olha-se de dentro para fora. A contemplação é limitada subjetivamente. Um homem relaciona tudo a si mesmo e é incapaz de se colocar no lugar do outro e compreender os motivos de sua ação. Isso é apropriado a uma boa dona-de-casa, cuja função não requer bom entendimento dos assuntos do mundo. Para um homem que atua na vida pública, esse modo egoísta e limitado de ver as coisas é evidentemente nefasto.”



(I'm Designer, by Quees The Stone Age, in Era Vulgaris, 2007.)

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