24 de abr de 2010

CAMARADA IEVE (1ª parte)


Gosto de pensar no universo como um daqueles palácios de arte que comportam inúmeros palcos destinados à interpretação de peças teatrais.

Existem atores em número suficiente para encenar as mais variadas tramas e nunca deixar esses palcos desocupados. As cadeiras das plateias, no entanto, são ocupadas exclusivamente pela minha onipresença.

Permaneço ali sentado independente da qualidade daquilo que esteja sendo encenado. Comédia ou tragédia: eu sempre me divirto! A minha única preocupação é me divertir, enquanto os atores, a cada novo roteiro que é escrito e encenado, tendem a transformar qualquer suposta contrariedade em pesados fardos que vão lhes curvando às costas.

Há atores que não creem na existência de qualquer espectador. Preferem acreditar no vazio das cadeiras. Talvez sustentem tal atitude para que se sintam mais seguros durante as encenações!

Outros dizem não se importar com o observador. Consideram-no irrelevante ou absolutamente desnecessário. Cumprem os seus papéis pensando no próprio deleite, carências, exigências do ego, mas raramente se sentem tranquilos o bastante para vibrar de alegria enquanto cumprem os próprios anseios e decoram e proclamam.

Considero mais talentosos os atores que se entregam ao "público" com o mesmo ímpeto que dedicam à leitura do roteiro, mas independente disso, permaneço ali sentado, observando e rindo enquanto encenam ininterruptamente.

Não deixo de me divertir mesmo quando me deparo com os inúmeros atores que se sentem donos exclusivos do palco. Tal atitude é mesmo engraçada! Divirto-me como aqueles que observam o ridículo de as pulgas tenderem a impor o seu tempo ao cão. Situações de ridícula infantilidade usualmente são bem divertidas! Rio-me enquanto as pulgas mordem e exigem sempre mais sangue do corpo que julgam de sua propriedade.

Fico imaginando, embora conheça a resposta desde o início de qualquer tempo, até que ponto o cão pode achar as pulgas divertidas. Aqueles seres minúsculos discutindo metafísica sobre a sua corcunda! Acredito que as tolere, talvez as ame como a coceira que a princípio dá distração, até o momento em que insuportável se torne o incômodo.

Então, num simples mover de pata ou mandíbula, o cão se livra dos infelizes insetos. E as siphonapteras contavam que aquele mundo cheio de pêlos fosse regido por sua batuta! É divertido: filosofia de arthropoda! Por outro lado, claro é que o cão também acredita que a mão que o alimenta, e, às vezes, o ajuda a se livrar dos insetos com o uso de algum veneno, por direito lhe pertence.

Tal mão tem ainda menos escrúpulo de se livrar dos pequenos elementos... até do cão... ou de outros atores... palco. É hilário!

Pena que as peças não possam durar eternamente como se poderia supor ou se protela. Mas, no fim das contas, nada se perde, não é? Aproveita-se tudo n'outro teatro, escreve-se novos roteiros, monta-se diferentes cenários.

Tudo se acaba verdadeiramente apenas quando eu me entedio. Sinto sono, estendo o braço, apago as luzes. Demoro um bocado, no entanto, a fazê-lo – simples assim! –, pois a possibilidade infinita de novas formas me fascina! Quase que acertaria aquele que me comparasse com o genuíno artista, sempre a buscar novas formas. A matéria de cada ciclo oferece diversidade inúmera! Infinitude muito maior do que poderia supor o tempo das pulgas.

Creio não estar entediado... agora... ainda. Até por que ainda consigo dar risadas de coisas tão irrisórias! Como quando insetos, cão, mão que o alimenta, encenam os seus papéis de ladainhas sobre eu lhes faltar com amor.

Ahahaha! O que poderia saber o carrapato sobre o amor? É até bonitinho o seu conceito sobre o amor, mas não queira ele aquecer todo o universo, iluminar ou escurecer cada e todos os cantos de uma só estrela, clamando amor enquanto suga sangue, ladra contra ladrões, inventa venenos contra parasitas.

Um dos menores aspectos do Meu Conceito de amor já seria por demais incompreensível para o alcance do raciocínio dos elementos supracitados, em suas atuais formas, e proveria todos os seres daquilo que eles precisam para serem bem-sucedidos. Nesse ínterim, cabe a pergunta: por que clamar por minha interferência todas as vezes que desejam maior volume de sangue?

Obviamente, quando a peça encenada não me agrada, interfiro! Sinto uma vontade que brota entre uma e outra estrela e o vento sopra reagindo sobre os pêlos do mundo onde se exigiu a intervenção. Mas tal intervenção se dá muito raramente, pois o necessário está disponível, não há motivos para clamores. Seja como for, é fácil substituir, depois que o vento sopra, o que falta acolá do que excede ali, mantendo o equilíbrio das formas. Simples como soprar verbos e sustenidos!

Mas clamem! Também essa peça chega aos meus ouvidos, Eu Sou. Querem sugar seu sangue cada vez mais e por todo o sempre? Não percebem a infinitude à sua espera? Que bonitinho! Seja quem tu és! O que quiserem ser! Divirtam-se!

3 comentários:

Anônimo disse...

impressionante

V.H. de A. Barbosa disse...

Teatro... cão pulguento, a metáfora é válida, levando-se em conta o nível de certas produções atuais. Mas isso vai mais longe, não é? Você não está a falar apenas de atuações. É um texto cheio de reticências, é um labirinto de ideias, fascinante.

Acho que inconformismo semelhante já destilei nesse texto http://zaratustratemquemorrer.blogspot.com/2007/06/o-dia-em-que-conheci-sybil-vane.html (perdoe qualquer traço de inexperiência, é um texto de alguns anos atrás).

Abraços, camarada!

ANJO LINDO E LOIRO disse...

Lembre-se NINGUEM conseguiu agradar a Grecos e Troainos!!!! E o importante eh se fazer presente!! Beijossss