29 de abr de 2010

Belo Horizonte!? #1

by Marc Chagall, 1912.

Quando surgiram as primeiras e rústicas construções na aldeia que um dia se tornaria capital das Minas Gerais, a pequena população contava apenas com a agricultura de subsistência e atividades pastorais para sobreviver. A maneira artesanal de os locais lidarem com a terra casou perfeitamente bem com o cultivo do algodão. A região montanhosa, novecentos metros acima do nível do mar, cercada pela natural moldura da Serra do Curral, favorecia boas colheitas. Os habitantes ainda descobririam a extração de minério de ferro, bronze, granito e calcário, antes mesmo da Revolução Industrial.

Apenas no final do século XVIII, porém, Belo Horizonte nasceria sob as estruturas pelas quais hoje ela é conhecida. Não vale a pena citar o nome dos políticos que deram vazão aos projetos para construção da primeira cidade brasileira rigorosamente planejada. Nunca vale a pena citar nomes de políticos, portanto, basta dizer que os fundadores da capital foram influenciados pelos positivistas, Haussmam, ideais republicanos.

Os habitantes da aldeia levavam a sério o dito do "crescimento e multiplicação" e em 1940 já somavam cerca de setecentos mil moradores. O exponencial aumento da população obrigou os governantes a repensarem a paisagem da capital a fim de que o perímetro urbano comportasse aquela multidão imprevista.

Agora seria a influência modernista, maiormente a art-dèco (Bauhaus), que inspiraria os arquitetos a aclimatarem a única cidade brasileira onde hoje se vê a citada manifestação artística reproduzida em prédios e edifícios. Os arranha-céus finalmente tomavam o lugar das árvores!

Belo Horizonte ainda passaria pelas mãos do famoso Juscelino Kubitschek (ops! a gente sempre acaba citando o nome dos infelizes políticos!), que chegaria à presidência, endividaria o país adquirindo suntuosos empréstimos junto aos EUA (dívida que só seria integralmente paga décadas depois) para construir Brasília, e, por fim, tornaria-se o mais querido sujeito a governar o país em todos os tempos.

Em começo de "carreira", Juscelino Kubitschek foi prefeito da capital mineira, iniciando a construção da alta aprovação popular que caracterizaria a sua jornada. O seu espírito construtivista o levou a conceber a Lagoa da Pampulha. Trata-se de um dos principais cartões postais belo horizontinos e ainda hoje é essencial para o equilíbrio da umidade relativa do ar da zona nobre. Tal obra teve a bela participação de Oscar Niemeyer, Burle Marx, Ceschiatti.

Hoje, só na capital, vivem quase dois milhões e meio de pessoas. A região metropolitana é o terceiro maior aglomerado populacional do Brasil, contando com cerca de cinco e meio milhões de habitantes, incluindo os descendentes diretos e indiretos dos principais imigrantes que desembarcaram por essas bandas: portugueses, italianos, espanhóis.

As temperaturas médias em Belo Horizonte oscilam entre os quinze e os trinta e cinco graus. Se bem que, no mesmo dia, já testemunhei os termômetros marcarem os quarenta e dois e à noite descerem aos doze graus. Dia este em que, não resistindo aos apelos de certos conhecidos, resolvi caminhar e tomar os vertiginosos ônibus que cortam as ruas da capital mineira. Parti em direção a certa galeria de arte. Ali estavam expostos inúmeros trabalhos do modernista Marc Chagall.

“Vá lá ver o Chagall!”, insistiram.

E eu, acreditando se tratar de alguma sessão mediúnica, ansioso quanto a um encontro com o artista através do corpo de algum espírita, lá fui. Decepcionei-me logo de cara: não se tratava de mesa branca e encorporação.

Já que estava ali, decidi não perder a pernada, admirar as obras do Chagall. Haviam belos trabalhos. O que eu não esqueceria jamais, no entanto, foi o comportamento de determinada observadora, que sintetizava a reação da maioria dos presentes.

As salas de tal galeria estavam lotadas. Além do sem-número de obras do Marc Chagall, estavam expostas também algumas esculturas do Rodin. Os visitantes admiravam as obras andando em lenta fila. Não costumo ficar alerta às conversas alheias, mas a pequena distância quase que inviabilizava a minha usual indiferença.

“Que trabalho sensual!”, dizia pela terceira vez a admiradora de artes que me seguia.

“Será que ela está perambulando pela mesma exposição que eu?”, perguntava-me, pois via belos traços naquelas figuras, mas nenhuma sensualidade. “Teria eu me tornado por demais insensível?”, pensei.

Provavelmente sim, pois o acompanhante da moça, rapaz de 30 anos que não tirava a mão do queixo, como se cofiasse o inexistente cavanhaque, simplesmente meneava afirmativamente perante as considerações reiteradas da amiga. Nada dizia. Apenas meneava.

Foi quando chegamos à obra retratada na imagem do início do post. Observei e rapidamente dei lugar ao casal. Estava curioso e a expectativa crescia a cada segundo. O que diria a minha casual seguidora da fila?

O jovem que a acompanhava parecia torcer mentalmente para que ela não repetisse a sua usual sentença sobre a sensualidade nas obras de Chagall. As suas intenções – parecer inteligente e culto e levá-la para a cama –, poderiam ruir se ele não conseguisse se conter. Ele a observava sofregamente e redobrara o comichão do queixo.

“Que desenho sensual!”, não resistiu a observadora de artes.

A seguir houve o frenético menear afirmativo do rapaz, quase que a balançar o pênis de dois metros que não se vê na figura, mas tenho certeza: lá está!

Não costumo bem receber a nudez masculina, mas posso garantir que o meu conceito do que é ou não sensual está muito ultrapassado. Preciso me atualizar para bem viver essa temporada na capital do belo horizonte – quiçá no mundo!?

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