30 de mar de 2010

Cena


Caminhou até a cozinha, abriu a geladeira, apanhou a garrafa. Tomou largo gole d'água. Devolvia o vasilhame à prateleira, quando pensou que melhor seria tê-lo consigo. Fechou a porta do eletrodoméstico, deu as vistas ao redor. A pia cheia de louças por lavar: aquele não era dia para tarefas domésticas executadas à risca! Pensou nos mantimentos que faltava comprar com os parcos trocados que ainda lhe sobravam do último serviço realizado.

Desligou a luz em nome da economia, retornou à sala onde a frágil iluminação do abajur sobre a mesa, onde o cinzeiro de vidro cor de terra cheio de guimbas, podiam ser vistos ao lado de folhas soltas, caderno de rascunho e caderno usado para desenvolver o serviço que lhe encomendaram. Será que honrariam a palavra e o pagariam por aquela história?

Ele precisava se esforçar para terminar dentro do prazo o número de páginas combinado. Esforçar-se para tirar as derradeiras palavras de fonte quase seca.

Outra vez solta o corpo sobre a cadeira, que range e reclama, cotovelos sobre o beiral de madeira da mesa com tampo de vidro fumê. Observa a circunferência do abajur, o cinzeiro, que agora tinham a companhia do vasilhame com água, os maços de cigarro vazios, o caderno à espera de ideias. O coração aguardava o milagre pacificador.

Traz o caderno até bem próximo do peito. Empunha o lápis e checa a presença da borracha. Ali estava ela, sobre uma folha em branco, o silêncio quebrado por fortuita sirene à distância. E... de novo o silêncio... silêncio...

Assim não era possível! O ritmo de trabalho era de duas horas para cada par de frases! Ele jamais conseguiria cumprir o prazo e deixariam de pagá-lo! Justo agora que já tinha o texto além da metade do total de laudas exigido em contrato. Matemática e letras não deviam jamais ser associadas e ele não conhecia nada sobre cabala!

“Pense no dinheiro! Pense no dinheiro! Pense nas contas pagas! Pense nas suas responsabilidades! Pense em tudo o que depende desse serviço terminado!”

Ele pensava, às vezes funcionava, mas agora... o silêncio do grafite pousado, sem peso, inerte. Não era possível! Outra vez duvidava de sua capacidade. Outra vez acreditava que os elogiados textos de outrora não passaram de mero acaso, abortos concebidos n'algum tipo de processo de canalização.

Ah!, quantas saudades dos tempos inconsequentes em que o álcool, a fumaça, o pó, regeram o ímpeto à criação! A adolescência provava que o melhor é não se preocupar demais! Madrugadas a fio ouvindo o macio mover do lápis através das linhas virgens. O resultado nem sempre era o esperado: a ressaca mostrava qualidade inferior àquela encontrada nas horas ébrias; ainda assim, fumaça, álcool, pó, eram bençãos! Pena que agora pareciam recursos infantis e faziam parte de longínquo passado! Agora as madrugadas do enfadonho presente só frutificavam a nostalgia dos tempos em que a irresponsabilidade ainda era possível.

Após descontar a frustração em outra ponta quebrada, a ser refeita no lápis, novamente ele se levanta. Caminha até a cozinha.
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“Pó de guaraná!”, pensa, diz, simula surpresa.

Ele sempre tomava pó de guaraná. O gosto se parecia com o odor da urina do diabo, mas ele conseguia disfarçar o péssimo sabor, dissolvendo a colherada do pó numa xícara de café amargo. Aquilo costumava, por efeito direto ou psicológico, acelerar a comunicação através das ligações neuronais.

Preparou bule de café, tomou o líquido misturado ao guaraná, mostrou caretas ao invisível, devido à desagradável experiência do paladar. Caminhou alguns minutos dentro da diminuta cozinha aguardando o efeito almejado.

A conta de luz andava nas alturas: interruptor e retorno à sala, à cadeira em frente ao tampo de vidro, à iluminação morna do abajur. Caderno próximo ao peito sufocado, lápis em punho, silêncio. Quisera ele possuir uma arma puxar o gatilho e espalhar palavras em vermelho!

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