16 de fev de 2010

Zaratustra Tem Que Morrer


O porquê do nome do blog

Alguns leitores, por vezes, e com razão, param-me e indagam: “Por que seu blog se chama Zaratustra tem que Morrer?”

A pergunta, feita com a mais sincera curiosidade, embaraça-me, pois às portas de completar seu segundo aniversário (sim, dia 25 de Janeiro!), não há nenhum post no blog a respeito disso.

Não que as tentativas certas já não tenham sido executadas. Pelos mais diversos motivos, contudo, o resultado não chega aos olhos dos leitores: ora falta-me criatividade e oportunidade para escrever sobre o assunto, ora meu dedo leve esbarra na tecla Power do teclado fazendo eu perder todo o conteúdo do texto, ora a Providência simplesmente me toma por teimoso e me manda um raio à cabeça. Não é por motivos assim, entretanto, que deixarei de tentar explicar algo que merece ser explicado. Afinal de contas, o nome do meu blog é sua principal janela.

É preciso salientar, antes de tudo, que em seus meses mais primitivos, o nome do blog era Zaratustra me Contou, num reflexo do mais pueril daquela fase de adolescentes estranhos que idolatram Nietzsche. No caso em questão, brincava com o título do livro de autoria do filósofo já citado, Assim falava Zaratustra¸ livro que fascinava meu desejo de contestação: ótima leitura para aqueles que almejam enxergar o mundo de uma óptica diferente, isenta de amarras éticas e morais, trajadas sob o manto sagrado das virtudes, capazes de engessar uma sociedade em bases sólidas e retrógradas, identificadas ora sob ferro e sangue, ora sob preces e terços.

É em Assim falava Zaratustra que Nietzsche se fantasia de Zaratustra, profeta e filósofo, e se põe a pregar suas observações sobre a vida, a morte, o pensamento, a sociedade e suas perspectivas, exaltando o que julga ser correto e sensato e atacando aquilo que abomina. Fascinei-me, inicialmente, com a visão dura e fria com que Zaratustra encarava as coisas, desprovida de sentimento, desprovida de qualquer coisa, pois uma visão niilista.

Em Setembro de 2007, entretanto, o nome do blog passou a ser Zaratustra tem que Morrer. De onde partira todo esse antagonismo?

Foi durante todo o primeiro semestre de 2007 que eu tive aulas de Ética, com um ótimo professor chamado Bianco. Nessas lições, fui inserido nos estudos da ética e da moral, ou seja, dos limites do ser humano, no que diz respeito aos seus atos potenciais e quanto ao seu próprio conhecimento; além do estudo das lógicas, a maneira como se ordena esse conhecimento. Durante esses ensinamentos, obtive contato com o estudo da lógica dialética, na qual não me alongarei em explicações, que podem ser conferidas aqui, mas que, resumidamente, posso conceber como “a contradição de idéias que leva a outras idéias”. O entendimento disso pode ser feito a partir de um exemplo contrário e prático, disposto bem a sua frente. Esse monitor com que você me lê, leitor, recheado de softwares, hardwares e etc, nada mais é do que o desenvolvimento da lógica racional, matemática, binária, do 0 e 1. Tal lógica envolve a essência da negação, da exclusão. A não pode ser não-A, eles se excluem, 0 não é 1 e vice-versa. Na lógica dialética, contudo, A e não-A não se excluem no todo, eles podem resultar em algo novo.

A aplicação social desse conceito merece a análise do momento pelo qual eu passava então: mudara-me para Londrina, para cursar a faculdade de Direito, separando-me, para isso, de mãe, pai, família, namorada, amigos e lar. Sem referências para me amparar, só pude contar comigo mesmo, com minhas próprias forças. Não havia quem me consolasse, quem fizesse as coisas por mim. Eu estava sozinho.

E foi nesse cenário que compreendi o sentido da “luta”. Não vá se fazer de ignorante, leitor, e imaginar que falo de combates corporais. Não. Falo de luta no sentido de superação, no sentido de ter leões em seu pescoço, cada um representando um enorme problema, e você ter de tirá-los dali, a qualquer custo, caso não queira tombar. Naquela época, apinhavam-se em meu corpo inúmeros leões, de dentes afiados, garras dilacerantes e tão pesados quanto todas as responsabilidades às costas de Atlas.

Voltando um pouco em nossa explanação, tínhamos Zaratustra, o profeta que vivia no topo de uma montanha, pregava a morte de Deus e contentava-se em proclamar a vinda do Super ou Supra Homem (por favor, não pense em Clark Kent), um ser perfeito que seria a evolução do ser humano como o conhecemos hoje, aquele que transita na rua ao seu lado todo dia.

Passei a negar essa visão de Nietzsche e a não concordar mais com ela. Percebi que a filosofia do alemão baseava-se em uma lógica matemática, racional, mecanicista, em que duas contradições não poderiam sobreviver no mesmo espaço. O Super Homem de Nietzsche significava a exclusão do homem normal, defeituoso.

Passei a conceber a fraqueza como ponto primordial do homem. Sim, a fraqueza. Sem a fraqueza, o homem não teria consciência de seus defeitos, de seus vícios, de suas desvantagens, e jamais poderia evoluir, à base de sangue, suor e luta. É com a vergonha que o homem possui de sua fraqueza que ele pode decidir-se a evoluir e a lutar, dando lugar a um ser superior, sim, porém advindo de uma lógica dialética, da contradição, da superação. Não é simplesmente um conceito excepcional de um ser superior que nega seu passado e toma o homem que fora com desprezo e negação.

O óculos quebrado na imagem do topo da página nada mais é do que isso: a superação. A quebra da fraqueza.

Envolto em problemas e cansado, pude negar Nietzsche e sua visão niilista e estóica. Pude me afirmar em mim mesmo, e acreditar na fraqueza, na luta e na superação. Não há o forte sem o fraco. Pude acreditar na lógica dialética e vencer meus próprios leões, acreditando na minha própria força.

Não é na profecia da vinda de um ser superior que o ser humano precisa acreditar. Tampouco na existência de um Deus que nos substitua na persecução de nossos desejos. O ser humano precisa acreditar em si mesmo e em suas capacidades e potencialidades. E então poderá fazer milagres. Precisa acreditar no poder de seu sangue, suor e lágrimas.

E, acreditando que a figura de Zaratustra representava toda uma destruição e uma descrença e a impossibilidade de existir um mundo onde as pessoas tivessem a ambição de melhorar em alma e garra, que proclamei à blogosfera e a todos que tivessem olhos para me ler e ouvidos para me escutar, não sem alguma tristeza e compaixão antes: ZARATUSTRA TEM QUE MORRER!
E esse tem sido o objetivo do blog desde então.


Desvirtudes (parte II)

Sou o pioneiro. Com minha readaptação, esperava lançar as bases de uma nova concepção da arte, fundindo – sempre a mistura, ressaltava – a ideia do intocável, do sublime, com a ideia do vulgar, daquilo que está aos olhos, ao tato, aos sentidos em geral, em excesso.

Minha readaptação – e aqui relembro meu satisfatório esgar em forma de distorcido sorriso canalha, quando apresentei a idéia a Isaac – nada mais é do que a transformação de O Processo, do gênio Kafka, em filme, sob o hediondo aspecto sexual!

Sei bem agora, que os dias me tolheram o vislumbre esperançoso de sucesso e me presentearam com enrugadas convicções realistas, que minha obra nada mais é do que um filme pornô baseado no livro kafkiano. Compartilho desta limitada visão após sofrer toda sorte de desilusão, o que não diminui em nada o impacto de minha genialidade.

Podem os grandes literatos, os acadêmicos, os críticos e mesmo os togados senhores da ABL notar todos os detalhes da obra kafkiana, seu papel no estabelecimento de um realismo submerso em fantasia, em pesadelos, a plasticidade sufocante do gélido ar europeu, os diálogos bem sustentados, a crítica ferrenha ao sistema judiciário, à condição humana e ao caminho do homem na efervescente passagem do século XIX ao XX. Nenhum deles, contudo, ou somente poucos, confesso não dar a mínima para estes portentosos senhores, reparou um instante sequer em toda a carga erótica desta obra-prima!

Ou muito me engano ou há somente duas saídas para nosso querido Kafka. A primeira, na qual acredito piamente: era um misógino acobertado por genialidade. A segunda, uma visão um tanto quanto brasileira: era um safado incurável. Minha opinião, entretanto, não basta, tenho de relevar o que o próprio escreveu: “Não se sentia...” – ele está a falar de K., enquanto este espera pela Senhorita Bürstner, ao qual beija posteriormente – “... particularmente atraído por ela, pois nem mesmo recordava exatamente que aspecto tinha, mas como queria falar-lhe, irritava-se ao constatar que a moça ao chegar tão tarde contribuía para que também o fecho desse dia estivesse cheio de inquietude e confusão. Tinha ela a culpa, do mesmo modo, de que naquela noite K. não tivesse comido e de que tampouco poderia fazer ambas as coisas se ele agora fosse à taberna onde Elsa servia como camareira”.

Ressalto outro ponto, aos que possam duvidar de minhas convicções, quando K. sente-se atraído pela mulher do porteiro do Tribunal, que é molestada pelo estudante de pernas tortas e barbicha ruiva: “K. deu precipitadamente dois passos em direção a eles, dispondo-se a tirá-la dele, e, se fosse necessário, a estrangular o estudante. Mas nesse momento a mulher exclamou: ´tudo é inútil; (...) não posso ir-me com você (...)’”. E K. brada, por certo ciumento: “E não quer ver-se livre dele!”. De fato, as mulheres praticam papéis subservientes nesta obra, padecendo sempre de uma passividade alarmante, que beira à manipulação, e ao total desprezo do narrador pelas mesmas. Mas esse não é o ponto fulcral.

Revelo peremptoriamente que o livro muito me excitou. Se por acaso estas memórias caírem em mãos alheias e estas mesmas mãos não tiverem percorrido as páginas de O Processo, rogo-lhe, leitor, que leia de imediato este livro, de maneira adequada, sob pena de considerá-lo um ignorante. E espero que mais pessoas, como eu, tenham notado toda esta degeneração. Senhorita Bürstner provavelmente se presta à prática de sexo corporativo, não tenho dúvida. É uma datilógrafa. Vai cedo ao trabalho, volta tarde. A mulher do porteiro é vítima de todo tipo de assédio por parte dos operadores de Direito, e vê nisso uma forma de poder, nunca resistindo. Seu marido, um tremendo corno, nada faz, embora queira, pois se vê ameaçado pela tirania daqueles que lhe transam a mulher. A enfermeira Leni, amante de todos, inclusive de K., tão perspicaz, julga poder influir nos destinos do processo do protagonista, assim como ama todos os acusados defendidos por seu patrão, o advogado Huld. Há ainda Montag, as endiabradas meninas do prédio de Titorelli, Elsa, e por aí vai. Todas imprestáveis, como o próprio Josef K. (continua...)


(gentil colaboração e textos da autoria de Victor Hugo de Araújo Barbosa, presentes no extinto site Zaratustra Tem Que Morrer. Atualmente o Victor assina o Ruinaria.)

3 comentários:

Ofício Editorial disse...

Oi, Daniel,

fico muito feliz em vê-lo coversando com o Victor e vê-los assim, como você disse, exercendo a retórica.
Abração!

V.H. de A. Barbosa disse...

Daniel, você com certeza leu na minha entrevista que, para mim, é um prazer ser lido.

Quanto mais ser reconhecido assim!

É um privilégio ser indicado aqui, levando-se em conta o alto nível dos posts que tenho acompanhado.

Ainda estou te devendo a resposta daquele e-mail. Só ter paciência com minha lerdeza.

Abraços!

Daniel Ricardo Barbosa disse...

Olá Érica! Olá Victor! Bom sabê-los a passarem por aqui!
Érica: pensei em usar a palavra "dialética", mas depois me decidi por "retórica", afinal, ao apresentarmos pontos de vista através da dialética, pretendemos igualmente que eles sejam avaliados e, por que não, aceites pelo observador através de nossa retórica. Bem que o contrário muitas vezes acontece e o observador simplesmente desqualifique o nosso ponto de vista. Mas daí, não é que o observador está igualmente exercitando sua retórica? rsrsrsrs. Pois é... a troca vale e muito!
Victor: é sempre um grande prazer poder apresentar através de seu modesto trabalho aqueles outros trabalhos com que nos deparamos e vemos inquestionáveis qualidades!
Voltem sempre e um grande abraço!