4 de fev de 2010

(((())))


Nesse post quebrarei meus limites éticos e desejarei do alto – ou baixo – de minha cadeira, em nome de um morto e em sua homenagem, agradecimentos aos que se mostraram tão sensibilizados e comovidos com o falecimento do dito, não se contiveram e espalharam pela mídia as suas mensagens em formato reportagem ou crônica.

Quebro os limites justamente porque o autor morto referido me é de grande importância. Desde muito jovem ouvia dizer de sua “obra-prima” Pensava: “Preciso ler!”. Não sei por que cargas d'água, embora nunca tenha deixado de lembrar o título do livro, adiei a leitura até o fim da minha adolescência.

“Não vou mais adiar!”, decidi subitamente e corri até a biblioteca pública a fim de requisitar o volume.

“Cuidado com este livro! Ele deixa a gente pinel!”, disse a atendente.

Não dei importância às recomendações de “cuidado com o conteúdo do livro” da bibliotecária. Os meus motivos para ler “O Apanhador no Campo de Centeio” eram menos “pungentes” do que os que embalaram a leitura de David Chapman, John Hincley Jr., Marilyn ou Charles Manson. Eu queria apenas dar vazão ao ímpeto à leitura e não corroborei – que eu saiba – a teoria da conspiração de que a leitura do “Apanhador...” seria como uma chave a desencadear o "espírito assassino" que há nos indivíduos. Desejava apenas que o livro me trouxesse boas e bem elaboradas questões.

No entanto, tão rápido quanto os olhos moviam sobre as linhas escritas, sem que eu percebesse as ideias em movimento, algo mudava irremediavelmente na minha alma. Só para fazer uma breve citação, a partir da leitura de “O Apanhador no Campo de Centeio”, decidi levar mais a sério as palavras que desde a infância eu riscava nos cadernos.

As raízes plantadas na alma alcançaram indizível profundidade. O mundo não voltaria a ser o mesmo, assim como as vistas lançadas em suas paisagens, pelos mesmos olhos antes tanto quanto indiferentes, agora tocavam as coisas de outra maneira, singular, suave e melancolicamente.

A morte de J.D. Salinger repercutiu infindáveis matérias sobre autor e seus livros. Não poderia ser diferente, sempre acontece quando controversa personalidade deixa a sua lacuna, mas Salinger é diferente das celebridades comumente alvo da necrofilia que a nossa sociedade leva adiante.

Salinger passou o último meio século recluso e reagindo violentamente às tentativas dos médias de lançar o seu nome outra vez no picadeiro do circo da mídia. Sequer publicou uma linha das coisas que certamente seguiu escrevendo com a disciplina que lhe era característica. Sempre o imaginei sorrindo largamente das especulações do mundo ao redor do seu ermitério. Rindo das doenças que os psicólogos passavam ao longo das décadas a designar a cada sentimento humano de inconformidade ou contrariedade. Gargalhando das reportagens que especulavam sobre as doenças psicossomáticas as quais o fictício Holden Caulfield supostamente sofria. Mas agora Salinger já não pode sorrir, rir, gargalhar, então pensei em prestar a minha homenagem póstuma.

Ao invés de enviar votos psicográficos a Salinger, acender velas ou incensos, no entanto, tomarei a liberdade de usar duas ou mais frases de sua autoria e dirigi-las a todos aqueles que, nunca o tendo lido, resolveram se sentir comovidos com o falecimento do autor, escrever reportagens, exaltar, especular, criticar “O Apanhador no Campo de Centeio” ou outras obras deste gênio que me é e sempre será tão caro.

A vocês, críticos, exaltadores de plantão, especuladores de rodinha e profissão, “num espírito de congraçamento, antes que nos juntemos aos demais – os que estão encalhados por aí por toda parte, inclusive, estou certo, os loucos ao volante de meia-idade que insistem em nos mandar para a Lua, os vagabundos que se creem iluminados por Buda, os fabricantes de cigarros com filtro para os homens que sabem escolher o melhor, os beatniks, os mal-ajambrados e os petulantes, os adeptos de cultos obscuros, todos os imponentes peritos que tão bem sabem o que devemos ou não fazer com nossos humildes órgãos sexuais, todos os jovens barbudos, orgulhosos e iletrados, bem como os guitarristas sem talento, os assassinos do budismo zen e os delinquentes juvenis de roupas padronizadas, todos esses que, do alto de sua infinita ignorância, olham para este esplêndido planeta por onde (por favor, não me interrompam agora), passaram o Palhaço Biriba, Cristo, Shakespeare – antes de nos juntarmos a todos eles, eu muito particularmente lhe peço, velho amigo (para dizer a verdade, quase imploro), que aceite de mim este despretensioso buquê de recém-desabrochados parênteses: (((())))”.

(Citação em itálico retirada do livro “Seymour: uma apresentação”, Cia. das Letras, 2001.)

Um comentário:

V.H. de A. Barbosa disse...

Um marco para mim também, com toda certeza.

Porém, ao passo em que você leu o livro no final da adolescência, eu o li no começo da minha. Razão pela qual as mudanças que o livro me ocasionou se perderam em camadas tão profundas que eu jamais saberei distinguir o que é e o que não é Holden Caulfield em mim. Mas sei que ele está aqui...

Também é interessante o fato de que emprestei esse livro a um grande amigo há uns bons 3 anos atrás e nunca ouso pedir de volta, pois essa é uma das únicas maneiras de eu não perder contato com essa pessoa, que mora longe.