10 de jan de 2010

Boca do Lixo

Boris Casoy, apontado por muita gente como um dos mais respeitados âncoras brasileiros de telejornais, idolatrado pelos ditos “conservadores”, há poucos dias, resumiu perfeitamente bem numa única máxima o pensamento geral vigente em nossos tempos.

Deixo claro que não apoio "conservadores" ou "progressistas". As palavras do âncora, porém, são o perfeito reflexo de uma sociedade com os nossos atuais valores. Valores estes que nada têm a ver com posicionamento político.

Durante a apresentação do seu telejornal, logo após dar a deixa para o intervalo e sem saber que o seu áudio ainda estava aberto, o supracitado jornalista comentou espirituosamente a matéria que acabara de ser exibida. Via-se dois “garis” cumprindo a praxe do fim de ano. Eles desejavam a todos um 2010 maravilhoso.

Seguem o vídeo e a pérola destacada na legenda:

“... que merda!, dois lixeiros desejando felicidades!, do alto das suas vassouras!, dois lixeiros!, o mais baixo da escala do trabalho!”

Após perceber sua impoluta imagem manchada pela repercussão do estúpido preconceito, Boris Casoy pediu singelas desculpas aos garis e telespectadores.

Há quem acredite que as desculpas, além de singelas, foram sinceras. Que merda! Obviamente o âncora não desceria do seu "alto degrau" da escala de trabalho a fim de pedir sinceras desculpas!

Fico só imaginando o âncora, durante a reunião de pauta, sendo aconselhado por seus pares a pedir desculpas. Constrangido por se sentir obrigado a se desculpar após 70 anos erigindo valores, que não valem os tênis calçados por um único gari, apenas pela prática do “bom tom” e preservar do “status”.

Para Boris Casoy preconceitos são ideologia. Ele pediu desculpas como quem besunta o ego com lustra-móveis. E seguiu ferrando os funcionários que cometeram o deslize de se esquecerem de fechar o áudio. Sou capaz de apostar que, na próxima virada de ano, naquele telejornal, não se verá nada além de economistas e congêneres desejando felicidades.

A imbecilidade perpetrada pelo jornalista, porém, não resume a estupidez. Não se trata de acontecimento isolado, pelo contrário, é prática velada, mas corriqueira, como o demonstra o clima descontraído do vídeo acima. A estupidez é quase imbatível e atualmente conta com espantoso número de seguidores.

Já tive o desprazer de acompanhar inúmeras situações semelhantes. Meses atrás, por exemplo, após passar pelo crivo de certa amiga, recebi dezenas de e-mails que me criticavam a minha “mania” de escrever tanto engenheiro como lixeiro com iniciais em minúscula.

Portanto, Casoy não é o único. Infelizmente não será o último a propagar as suas "filosofias" anãs. “É sinal dos tempos!”, diria o fanático. A frase do jornalista sequer me surpreendeu. Apenas corrobora as minhas aspirações por mudanças. Tais mudanças poderiam começar, por exemplo, por iniciativa dos lixeiros. Pena que o salário dos profissionais da limpeza pública não permita a todos o acesso à Internet.

Kurt Rudolf Mirow, em seu “A Ditadura dos Cartéis” (Civilização Brasileira, 1980), reproduziu os dizeres de um empresário do ramo eletrônico com vasta influência política, que insistia na ideia, durante determinada reunião de lideranças, de que os lixeiros jamais poderiam receber bons salários, posto que a partir daí não quereriam mais seguir atuando como lixeiros. Segundo tal empresário, a sociedade, afinal de contas, necessitava de lixeiros. Imperioso, portanto, que os seus salários fossem mantidos baixos! Tudo valia pelo "bem do equilíbrio social".

Quisera eu que todos os lixeiros pudessem acessar a Web! Quisera eu que todos eles chegassem a esse blog! Aconselharia-os a despejar na mansão do Boris Casoy todo o lixo que eles recolhem mundo a fora. Seria um excelente – e muito apropriado – novo depósito.

As mudanças poderiam começar por aí, embora o coração humano, ah!, ele é quem precisa de novos valores!

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