14 de nov de 2009

Trinados para o meu Passarinho & História com Pênis e Cabeça

As minhas primeiras colocações a respeito dos livros que leio são sempre passionais. Não consigo partir de critério imparcial, que leve em consideração unicamente as qualidades literárias de determinada obra, acabo transformando o subjetivo em paixão ou tédio. Obviamente, após releitura, posso fazer avaliação isenta. Só então sou capaz de rascunhar algumas linhas a respeito do livro, sem correr o risco de me deixar levar exclusivamente pelo gosto pessoal.

Ao mesmo tempo, toda e qualquer explanação a respeito de determinada obra, não poderia deixar de conter boa porção do gosto pessoal. Mas há qualidades que se deve considerar, falar a respeito em pretensa resenha, ainda que particularmente não se tenha gostado do livro ou obra.

Abrirei exceção e falarei a respeito de dois livros antes da mencionada releitura. Em primeiro lugar, sem medo de ser passional, por ter tido a oportunidade de ler dois excelentes livros no último mês. E, em segundo, por eles me parecerem tão bem casados com determinados lances que me tomaram os pensamentos nas derradeiras semanas.

O primeiro desses livros traz o sugestivo título “História com Pênis e Cabeça” (Edições Mortas, 2009). Embora o seu autor Vitor Vicente tenha sido sugestivo ao intitular a obra, usou também de sutileza.


Trata-se de uma lírica quase que inteiramente em formato de roteiro de teatro, onde o personagem, sob o clima dos Talking Heads, equilibra-se entre os dizeres e contradizeres da razão (ou da cabeça) e os reclames do corpo. Por ser óbvio, abstenho-me de citar qual parte do corpo, figura como interlocutora dos reclames.

Vitor prova, através do seu primoroso livro, que é possível e louvável debater a supracitada contradição sem nenhum resquício de ranço, abstendo-se de clichês, inteligência apuradíssima, maturidade que, se já transpirava em suas primeiras publicações, nesta obra grita em tão elevado timbre que só após algumas horas depois do término da leitura, pude refletir e reunir palavras para descrevê-la com razoável propriedade.

O autor dá lição sobre como abordar temas como o de “História com Pênis e Cabeça” sem cair na falácia midiática ou posar nu para qualquer que seja a revista de ampla circulação (vide este post para melhor entendimento). E ainda manter viva a sutil ironia que caracteriza toda a sua obra (como Henry Miller?). Por fim, o autor nos leva a todo o momento a dar aquele sorriso, como se disséssemos: “Que malandro! É isto mesmo!”. “...simples como 1-2-3”.

O outro livro que que tive oportunidade de ler no último mês se chama “Trinados para o meu Passarinho”. É da autoria da Urda Alice Klueger e foi lançado pela Editora Hemisfério Sul (2009).


Não são todos os dias em que livros mudam a nossa concepção sobre coisas que consideramos importantes. Quando se lê notícias sobre atos contra universitárias trajando curtos vestidos, e se percebe quais são os valores tanto da aluna quanto dos demais jovens ali envolvidos – quiçá de grande parte da humanidade? –, pergunta-se: que tipo de circunstâncias os levaram até àquela personalidade?

Tal evento levou-me a pensar no “Trinados para o meu Passarinho”, assim como outro acontecimento (a ser tratado de maneira sucinta em post futuro), levou-me a perceber sem-número de méritos do “História com Pênis e Cabeça”.

Cheguei à conclusão de que talvez o que nos falta é justamente a melodia que Urda canta em altos brados no "Trinados...".

O amor "entoado" por Urda em cada página do seu livro não se encontra na esquina. É interior e por isso mais difícil de ser encontrado e compreendido. É “algo” que nasce, grita, descansa, volta a suspirar com imensa força, a cada nova descoberta, a cada nova amizade, cada segundo durante o bom trabalho; o amor enquanto se dorme ou desperta. O amor do itinerante pela estrada tantas vezes revelado por Vitor Vicente em seus diários de vagamundagens.

No "Trinados..." o amor é tudo o que há . É a atmosfera onde se flutua, sonha, caminha. Talvez a própria vida?

Urda alcançou a proeza de escrever o texto exato para aquelas horas em que a compreensão parece tão frágil e quase nos escapa (como em alguns momentos pareceu escapar à autora!). Mas, em sua profundidade, não se limita à própria substância etérea que o compõe.

Só sei que quem não tem amor genuíno para consigo próprio não sabe nem por onde começar a senti-lo pelo semelhante. E todas as coisas são semelhantes, não é? Frutos da mesma matéria ou "barro".

O que transborda no livro da Urda, segundo penso, é o que falta para que acontecimentos como os aqui referidos simplesmente deixem de ter sentido e se esvaiam como poeira ao vento.

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