18 de out de 2009

VV e os Pombos

I Heard They're Dirty, Coletivo Glue Society, 2009.

Chovia à distância na grande Cidade das Sete Colinas. Ele soubera que tal denominação se referia igualmente a determinado município do outro lado do Atlântico. Ah!, a notícia mais parecia disse-me-disse entabulado em plena feira livre!.

Aquela capital no horizonte, respirando as nuvens que desaguavam, sim, era a verdadeira aldeia das sete colinas, principal município de uma nação que não se integrava à nenhum dos vizinhos que a circundavam. Por vezes renegada, como os seus habitantes, sempre a andarem levemente curvados devido ao peso de volume invisível sobre as costas, passos lentos e pesados pelo fardo do passado a lhes espreitar a sombra.

Talvez, sem nenhuma noção estatística quanto às possibilidades de acerto, a chuva a tragar a cidade, tornasse ainda mais árdua a travessia do rio. Nunca fora fácil cortar as águas sobre a balsa que todos os dias levava tantos corpos da província desconhecida à colmeia sobrecarregada. Alma cheia de cicatrizes e mágoas parecidas com as feridas do rio. Todo dia era o mesmo tormento, mas em dias nublados, um bocado pior.

Talvez a chuva fosse o motivo para que ele se sentisse ainda mais oprimido naquela manhã. Como se aos poucos, a cada metro vencido pela combustão vagarosa do diesel, a paisagem de tantas lembranças o anulasse. Tornasse-no apenas mais um. Comum.

A travessia era tortuosa! Mas VV não se queixava. Silenciava.

Aportar, tomar o metrô, saltar na mal-fadada estação. Pior era ser obrigado a cruzar a praça movimentada. Antigamente ele se permitia tomar largo gole daquele café amargo. A cafeteria se situava em frente à praça, instalada numa das esquinas, em pleno calçadão, portal de entrada para visitas à baixa turística.

Muitas vezes VV acabara marcando encontros com amigos, conhecidos e desconhecidos, precisamente naquele ponto, valendo-se de sua fácil referência. Além do mais, o estabelecimento remetia a outras terras. Tantos lugares para itinerar e não se sentir tão mal!

Sentado à mesa, ouvidos atentos aos idiomas entoados por todos os tipos de semblantes de turistas, VV chegava a planejar viagens. Mas agora não mais. Tal liberdade durou tão pouco!

O sabor do café não era mal – os ânimos se renovavam! Conversar sob a aura de Fernando Pessoa (nem vale a pena citar a alma de Almada Negreiros), era no mínimo singular. Ah!, mas Lagoa Henriques, maldito escultor!

A estátua existia desde sempre, mas... a consciência de sua existência! VV passara a não gostar de míseras homenagens póstumas. Maldita estátua de Fernando Pessoa, malditos pombos, malditos turistas! Quisera que todo o bronze que há no planeta tivesse sido consumido antes da consumação daquele impropério! Agora não mais se sentava às mesas do estabelecimento. Suava em bicas, a cabeça doía, as vistas turvavam.

Antes de tomar definitivamente tal decisão, porém, VV se sentara uma última vez ao redor da mesa que lhe permitia a melhor vista. Pedira um expresso apenas para se sentir confortável em permanecer meia-hora sentado a observar. Imediatamente passou a sentir os frêmitos que, nos últimos tempos, maiormente em lugares como aquele, acometiam-no, tremiam-lhe as mãos, balançavam-lhe freneticamente a cabeça.

Tal mal começara justo naquele café, durante um encontro com uma garota. VV nem sequer conseguira concentração para levar a moça em seus braços! Maldito ser de bronze que nada tinha a ver com o poeta! Mero objeto sem significado abduzido e assediado por grupos de turistas a cada par de minutos!

“Que lugar emblemático!”, eles diziam rentes ao metal, tocando os pesados ombros da escultura, acariciando a frieza do chapéu, nuca, faces mortas.

VV observava com os atentos olhos de uma suindara, enquanto as turistas mais regateiras, chegavam a sentar no colo de pernas cruzadas em 4 do monumento, que procurava reproduzir O Poeta em suas poses costumeiras. Engraçadinhos fingiam ajustar a gravata borboleta de metal. Parvos simulavam cumprimentos na mão direita içada.

Ah!, se O Poeta estivesse vivo em corpo! Ah!, se a estátua pudesse reagir, seu imenso pau de bronze espetar o traseiro da turista, os dedos penetrar nos olhos do primeiro que surgisse para simular um cumprimento ridículo!

“Nem acredito que abracei Fernando Pessoa!”
“Nem acredito que tomei café com Fernando Pessoa!”
“Nem acredito que tirei fotos ao lado de Fernando Pessoa!”

“O Poeta é morto! Vocês viram ele levando a xícara à boca? Tiraste fotos ao lado de um monte de metal! Conseguem ao menos citar um só verso d'O Poeta? Merda!”, respondia mentalmente VV.

Logo os turistas invertiam posições, agora era o marido quem tirava fotos, outros dois casais, novos amigos, gente de todas as partes do globo, abraçando o corpo frio da estátua.

E ainda por cima os pombos! Ah!, os pombos! Não era só o corpo frio que os turistas abraçavam! Recolhiam e levavam na roupa por todo o planeta o cocô dos pombos que viviam naquela região. Aves tais que adoravam deixar a sua característica marca sobre a representação em bronze d'O Poeta.

“Vocês estão abraçando merda! Não veem?”

VV se revoltava não apenas pela repugnância da cena - “não se podia tomar um café sossegado na cidade das sete colinas!” -, mas, igualmente, e quanto às doenças? VV não se cansava de acrescentar em pensamentos nomes à sua letrada lista: criptococose, histoplasmose, salmonelose... E, indiferente, o povo não se cansava de se esfregar na merda.

Outro frêmito: jovem bêbado a elucubrar em idioma escandinavo, colocando-se em paralelo e encostando a própria bochecha no que seria a bochecha direita d'O Poeta. Seus olhos chegavam a fibrilar de desmedido êxtase. De certo pensava estar compartilhando da mesma sombra proporcionada pelo chapéu de Fernando Pessoa.

“Agora bote a língua pra fora e lamba a mancha branca a dois centímetros do teu nariz!”, pensava VV.

O café expresso sempre secava mais depressa na xícara do que o espanto causado pelas cenas. Logo os olhares enviesados dos garçons, apressados quanto ao rodízio de clientes, obrigava VV a pedir outra dose do líquido revigorante.

Ele não sabia o porquê, mas aquelas cenas irresistíveis, durante o restante do dia, faculdade e colegas, trabalho e colegas – parvos com raras exceções –, perseguiam-no sem trégua.

VV jamais saberia muito bem o motivo, mas o cocô dos pombos negligenciado, e, de certa forma, por tabela, adorado pelos turistas, algum dia, junto a outros motivos que essa narrativa se abstêm de explicar, acabaria levando VV a um ponto mais distante do oceano. E, quem sabe um dia, todos os oceanos não tivessem tido sobre suas águas as vistas sempre cheias do brilho que resplandece cada canto escuro, lançadas por VV durante as suas buscas?

Até os limites temporais alcançados por estas linhas, porém, VV apenas decidira não mais se sentar naquelas pequenas mesas cheias de detalhes e cheiro de temperos e venenos vitorianos. Cruzava direto e com olhos baixos a praça e o calçadão, apenas por força da necessidade.

Ele preferia o quarto de casa, as portas e janelas trancadas. Os Mão Morta e Nick Cave a girarem na vitrola. Encontro verdadeiro e intrínseco com O Poeta através do simples estender de mãos até as prateleiras das estantes cheias de livros. Assim VV não se sujava com dejetos de pombos!

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