21 de jul de 2009

O Louco


Perguntas-me como me tornei louco. Aconteceu assim: Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas minhas máscaras tinham sido roubadas - as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas.

Corri sem máscara pelas ruas, gritando: "Ladrões, ladrões, malditos ladrões!".

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim. E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de casa gritou: "É um louco!". Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou-me pela primeira vez minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol; e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: "Benditos, benditos sejam os ladrões que roubaram minhas máscaras!".

Assim me tornei louco. E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura. A liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele desigual que nos compreende sempre escraviza alguma coisa em nós.

(Khalil Gibran, in "O Louco", L&PM, 2001.)

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