17 de jun de 2009

Entrevista ao Ofício Literário


Reproduzo abaixo entrevista concedida por e-mail ao pessoal do Ofício Literário. A matéria segue idêntico formato de sua publicação original.


1 - Como você se tornou escritor? A partir de qual momento um escritor escreve? E a partir de qual momento o escritor faz literatura?

Daniel - Às vezes me pergunto se cada pessoa não nasceria com uma ou mais vocações. Tais inclinações seriam desenvolvidas de acordo com o ambiente em que se vive, oportunidades que se encontra pelo caminho, o temperamento do próprio indivíduo. Várias razões me levam a acreditar nesta espécie de “seleção natural”, que concederia os talentos específicos de acordo com as necessidades quantitativas da humanidade. O problema, hoje em dia, nesta sociedade em que dinheiro e poder são prioridade, é que muitas vezes as vocações inatas são negligenciadas em prol da sobrevivência ou acúmulo. Certas vocações são desprezadas a priori por não representarem campo para ganhos suntuosos; e, talvez, mais fáceis de serem conquistados. Hoje encontramos carpinteiros inatos praticando cirurgia estética, açougueiros regendo nações através da economia, metalúrgicos despachando na política etc. De qualquer maneira, segundo penso, não se torna escritor: nascem escritores. E, como acontece nas demais artes, tal vocação é mais difícil de ser negligenciada. O apelo ou impulso à criação é imperioso. Pode-se até tentar passar indiferente por ele, não lhe dar ouvidos, mas as chances de se sentir profundamente infeliz o tempo todo são maiores. Tenho lembranças dos meus 6, 7, 8 anos de idade com caneta e papel na mão, lendo redações que escrevera em sala de aula da escola pública que eu frequentava, enquanto os demais alunos ouviam com grande curiosidade, durante o único momento em que eles faziam atento silêncio. Não há um momento em que o escritor passa a traçar suas linhas: ele escreve a partir de qualquer acontecimento e em qualquer época de sua vida. Ser escritor é também se tornar o registro vivo do seu tempo. E qualquer estranhamento diante o que se passa ao redor serve como mote. O resultado da observação e do registro pode ou não ser chamado de literatura. Passei a considerar os meus textos como tal ao perceber que escrever era tudo o que eu queria e sabia fazer razoavelmente bem.

2 - Escrever, como tocar um instrumento, exige tempo, dedicação e exercício. Qual “técnica” (se podemos chamar assim) você usa para aprimorar sua escrita?

Daniel - Dificilmente o escritor consegue sobreviver exclusivamente dos seus textos. Ele precisa se dedicar a outras atividades a fim de prover seu sustento. O ideal, ao contrários do que muita gente diz, segundo penso, seria poder dedicar-se integralmente à vocação. Inclusive, se assim o fosse, encontraríamos literatura de melhor qualidade nas prateleiras das livrarias. Porém, a melhor maneira de aprimorar a escrita, é ler e escrever. Manter certa regularidade nessas práticas. Ler e escrever diária e exaustivamente. O máximo que o tempo permitir. Ler de tudo válido um pouco e experimentar na hora de escrever. Deixar-se livre no momento da criação e não se enganar pensando em obras-primas a cada meia dúzia de linhas.

3 - Há alguma hora ou momento preferidos para escrever? Escreve em silêncio ou com música?

Daniel - Gosto de escrever durante a madrugada. É quando o silêncio impera e posso fazer um “apanhado” do dia. A partir daí, as ideias surgem. Mas costumo andar sempre com caneta e bloco de anotações no bolso, pois podem se fazer necessários a qualquer hora. Na maioria das vezes, escrevo ouvindo músicas cantadas em inglês. Já tentei escrever ao som da MPB, mas não há distanciamento o suficiente no que se refere ao idioma, acabo me desconcentrando. Mais raramente ouço também música instrumental enquanto escrevo.

4 - Quais são suas obras e autores prediletos?

Daniel - São tantas obras e autores! Entre eles, posso destacar: Aldous Huxley (Admirável Mundo Novo e Duas ou Três Graças), J. D. Salinger (O Apanhador no Campo de Centeio), Dostoiévski (Crime e Castigo), Stendhal (O Vermelho e o Negro), Mario Vargas Llosa ( Tia Júlia e o Escrevinhador), F. Scott Fitzgerald (O Grande Gatsby), Franz Kafka (O Processo ), Albert Camus (A Queda e O Estrangeiro ), Robert M. Pirsig (Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas) etc. Quero citar 5 autores que me espantam por seu pensamento e/ou literatura ousada, moderna, arejada. O filósofo Jean Baudrillard, por exemplo, pela atualidade do seu pensamento. Dois autores portugueses que também trabalham ou já trabalharam como editores e sempre me surpreendem com suas obras e leituras do mundo: Vitor Vicente e Rui Caeiro. E dois brasileiros: Patrícia Melo e Joca Reiners Terron (o livro "Sonho Interrompido por Guilhotina" é excelente).

5 - Dentre suas obras favoritas, comente uma. O que a diferencia das demais no universo da literatura?

Daniel - Gosto muito dos chamados “Romances de Formação”. Dentre eles "O Apanhador no Campo de Centeio", a história de um adolescente controverso, que não consegue se adaptar à sociedade, àquilo que o cerca, não enxerga perspectivas a não ser viver isolado numa choupana, parece-me bem atual. Posso separar as minhas leituras entre antes e depois de certos livros. "O Apanhador…" talvez seja o marco mais nítido e significante. Suas questões, abordadas com simplicidade e de maneira tocante, perduram e talvez se encaixem até mesmo com maior probidade no mundo atual.

6 - Conta a lenda que Fernando Pessoa escreveu poemas de Alberto Caeiro de uma só vez, como mais que psicografando do que escrevendo. Umberto Eco, por sua vez, diz que faz pesquisas sobre o tema que quer escrever. E você? Como escreve? Qual é o seu processo?

Daniel - Pesquisas são fundamentais para que a obra não se perca no vazio. Isto não quer dizer que sempre será necessário interromper o fluxo criativo para fazê-las. Até porque a “bagagem cultural” do autor há de ser pesada e volumosa. Quase sempre ela supre a necessidade da hora. No mínimo torna as notas mais concisas para futuras pesquisas. No meu caso, cada obra exige particular processo. O que nunca muda: sempre escrevo “à moda antiga”: uso lápis e papel e só depois de ter o texto “pronto” o transcrevo para o computador. Textos que vêm na “íntegra”, como no caso do Alberto Caeiro, geralmente precisam de poucos “ajustes”. Nos demais casos, mesmo após transcrever, costumo reescrever algumas vezes antes de me cansar e teclar o ponto final.

7 - Depois de escrita uma obra, ela fica na gaveta? Ou é imediatamente enviada a uma editora?

Daniel - Certas obras precisam de maior amadurecimento por parte do autor, para que proponham com competência o diálogo com os leitores. É imprescindível tolher a vaidade e ansiedade por ver a obra publicada e deixá-la descansando na gaveta. Só envio o original para as editoras quando consigo fazer uma leitura crítica isenta e a obra me parece íntegra.

8 - Sobre editoras, qual foi seu percurso? Como um autor “estreiante” é recebido nesse mundo?

Daniel - Neste mundo em que cada vez mais as tendências mercadológicas e modismos ditam não só o que se deve publicar, mas norteiam absurdamente a vida em sociedade como um todo, o autor estreante é muito mal recebido. A não ser que se trate de autor que se coadune às modas, possua dinheiro para bancar a publicação de suas obras, ou mais raramente, dê a sorte de encontrar alguém com coragem para investir no novo. Durante quase 6 anos trilhei um caminho árduo de contato com intermediários, estagiários, assistente, editores. Se não fossem as amizades que se firmaram a partir dos contatos feitos, as palavras de incentivo que estes amigos despretensiosamente dedicaram, fatalmente eu teria desistido. Por fim, agradeci pela sorte: encontrei alguém do ramo pouco ou nada ligado à “modismos e finanças”, mas ao novo, à polêmica, à “boa literatura”, cujas circunstâncias permitiam e a coragem incentivou para que publicasse o "Elo, Entrelinhas e Alucinações"  – o meu primeiro livro publicado. Hoje este editor, acima de tudo, é meu amigo.

9 - Escrever é preciso? Escrever é uma necessidade?

Daniel - Escrever é preciso por ser uma necessidade.

10 - Qual sua recomendação ao jovem escritor?

Daniel - Leia e reze sempre nem que seja à própria sombra. Você vai precisar das duas coisas.

11 - “Cansada de se arrastar pela casa e fechar as janelas que o vento insistia em abrir”. Assim é a primeira frase de seu livro, Elo, Entrelinhas & Alucinações. A primeira frase é importante?

Daniel - Certa vez, li uma matéria que relatava a preocupação de certos autores, com a primeira frase de suas obras. Nesta matéria haviam citações do que supostamente seriam as “melhores primeiras frases de todos os tempos”. Referia também a autores como Gabriel Garcia Marquez, entre outros, que costumavam levar alguns meses pensando na primeira frase dos textos em que estavam trabalhando. Fiquei impressionado! Dou a mesma importância a qualquer frase ao longo de um texto. Todas elas têm que ser capazes de interessar ao leitor. No entanto gosto de começar os textos como se "tomasse o barco em movimento”. Passo a descrever a “paisagem” do momento em que tomo parte da “travessia” e não como se fosse desde sempre uma consciência atemporal, onipresente, ilimitada. Quem estava ali antes de minha chegada já tinha vislumbrado coisas muito interessantes e belas. As personagens já tinham vida antes da minha intrusão e durante certo período eu apenas tenho a oportunidade de participar e descrever acontecimentos. Qualquer primeira frase que destoasse do texto, por ser de maior impacto, faria com que eu tomasse de assalto em vez de adentrar suavemente na vida destas personagens e consequentemente do leitor.

12 - Do que fala o livro?

Daniel - "Elo, Entrelinhas & Alucinações" é a história de um país fictício que durante séculos ficou completamente isolado do mundo. Certos eventos levam o mundo a se interessar por esta nação singular e as mudanças que acontecem são descritas com ironia e bom-humor. Trata-se de uma tentativa de entreter o leitor ao mesmo tempo em que ele é levado a certos questionamentos e reflexões. Uma sátira a nossa sociedade capitalista e à sua capacidade de degenerar todos os elementos.

13 - Como foi seu processo de escrita nele?

Daniel - O processo de escrita do "Elo, Entrelinhas & Alucinações", na verdade, foi me libertar de qualquer tipo de processo. Após tantas portas que me foram fechadas, ante as minhas tentativas de publicar, eu havia desistido deste sonho com ares de utopia. Decidi escrever uma última vez e apenas para mim. “Tomar aquele barco”, não mostrar o resultado a ninguém, nunca mais lutar contra a correnteza. Dei-me total liberdade para escrever o que me viesse à cabeça. E como estava deveras revoltado, descrente, irritadiço… Talvez por isto eu receba alguns e-mails perguntando por que o livro às vezes soa tão ácido. Tão crítico que chega a provocar a risada. Trata-se de um livro fora dos “padrões” que geralmente o “mercado literário moderno” exige dos autores. Bastante extenso, porém, escrito em apenas um mês, e de leitura fácil e rápida. Não são todos os dias em que isto acontece: muitas vezes se faz necessário anos de trabalho assíduo até que se chegue ao ritmo e fluência desejadas.


Agradeço ao Ofício Literário pela oportunidade de responder a tão interessantes perguntas e ainda por cima falar um pouco sobre o livro "Elo, Entrelinhas & Alucinações". Abraço!

5 comentários:

beth finholdt disse...

!Bravo!!!

Erica disse...

Oi, Daniel,
Li sua publicação aqui e gostei das discussões e da polêmica. Admiro muito a capacidade que nós, seres das ciências humanas, temos de pensar, debater, imaginar. Um amigo me disse uma vez que as outras áreas de conhecimento conseguem produzir para o presente novas tecnologias; mas que somente nas ciências humanas se consegue discutir o futuro muito antes que ele se faça meramente possível (lembro-me de Jules Verne e de todo o pessoal de ficção científica).
De sua entrevista, Daniel, não canso de pensar em um trecho que me assombra (como diria Guimarães Rosa): "De qualquer maneira, segundo penso, não se torna escritor: nascem escritores. E, como acontece nas demais artes, tal vocação é mais difícil de ser negligenciada. O apelo ou impulso à criação é imperioso. Pode-se até tentar passar indiferente por ele, não lhe dar ouvidos, mas as chances de se sentir profundamente infeliz o tempo todo são maiores."
Creio que seja isso mesmo.
Continue a polêmica!
Abraço
Érica

Anônimo disse...

Gostei deste post e da entrevista abaixo. Vistarei outras vezes este blog.

Daniel Ricardo Barbosa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anjo Lindo e Loiro disse...

Sou suspeita pra falar sobre Literatura, mas não precisamos agradar a todos, devemos ser sinceros com nossas filosofias e com o que gostamos. Adorei a entrevista e adoro ver seu ponto de vista amplo, sem censuras, sem maquiagens. Sobre o post: no comments!! Continue usando esse espaço para expor suas opiniões e comentarios (incluindo os mais acidos), ninguem melhor que vc para isso!
Espero poder ver em breve mais trechos do "On-line"! Gostei muito do trecho que vc postou ha algum tempo. E estou ansiosa pra saber, para ler mais dele.
Bjss