9 de jun de 2009

Non Sense, No Papas III (Entrevista - Érica Bombardi)


A Entrevistada:

Érica Bombardi é graduada em Comunicação Social, com habilitação em Editoração, pela ECA-USP. É Escritora e atua em editora acadêmica de Campinas. Dedica-se igualmente a auxiliar o grupo Ofício Editorial a pensar sobre os caminhos da ficção brasileira.

Perguntas:

1 – O que a levou a atuar no “ramo” literário?

Érica Bombardi - Sempre gostei de ler e de escrever. Quando pensei em minhas possíveis opções para vestibular, não tive dúvidas, resolvi prestar Editoração, e não desisti até passar no curso. No curso, optei pela área de texto, que é a mais interessante para quem quer estar em contato direto com a produção de um livro desde o início. O livro começa no original trazido pelo autor, mas não pode negar a contribuição do editor de texto, do preparador, do revisor, enfim, de todos os profissionais envolvidos com o livro.

2 – Fale um pouco sobre o seu dia a dia. O que mais a faz se sentir realizada e em que momento se sente um pouco frustrada?

Érica Bombardi - Essa é a pergunta mais difícil. Deixei-a para responder por último. Meu dia a dia segue o ritmo de qualquer trabalhadora, mãe, esposa, estudante, ou seja, caótico. Em meu trabalho fixo, dedico-me 8h30 por dia à produção de livros, tentando seguir o cronograma diário e dar atenção a todos os detalhes que apareçam inesperadamente. Coordeno a produção, então, tenho de controlar o fluxo de trabalho de meus colegas ao mesmo tempo em que tenho também de cumprir com o meu. Tenho de colocar os livros em gráfica no prazo estipulado. Há as conversas e reuniões com autores. Há as demandas de outros setores. Há livros chegando para avaliação e outros chegando de gráfica. E tudo merece a mesma atenção. É muito cansativo, mas intensamente recompensador. Aprendo coisas novas todos os dias, os livros são meus mestres e alunos. E nada é mais satisfatório do que ver um texto finalmente materializado em forma de livro e sendo recebido por seu autor.
A frustração vem pelo o que não consigo fazer para tornar o livro ainda melhor: quando não há tempo para nova revisão, ou não há muito tempo para se atentar ao projeto do livro, quando não se pode dar a devida atenção a um autor ou a algum dos tantos e-mails que recebo. Também há o desânimo em se notar a apatia do mercado e dos leitores para com alguns títulos, ou a falta de paixão intelectual pelo livro. Eu trabalho com livros porque adoro ler, e não entendo como há os que apenas tratem esse como mais um negócio. Ser um provedor de cultura não é um trabalho qualquer. Não quero dizer que seja algo que tenha de trazer status, mas é algo para o qual há que se ter dedicação intelectual. Desculpem-me a analogia, mas eu faço um paralelo com o sacerdócio, o padre não deixa de ser padre quando sai da igreja.

3 – Houve grandes mudanças neste campo de atuação desde que ingressou no “ramo”?

Érica Bombardi - Acho que as alterações que hoje acontecem no Brasil já foram sentidas pelos outros países. A maior alteração deve-se ao ingresso dos grandes grupos de comunicação que adentraram no país, em seu expansionismo, principalmente espanhol, português e inglês. As editoras, que até então eram relativamente livres para escolherem quais autores publicar, agora trabalham em meio a um conglomerado e devem, assim como as outras empresas do grupo (que envolvem outras mídias, como TV, cinema, jornal, e até empresas de ramos totalmente diferentes), se mostrar igualmente competitivas e lucrativas. Essas editoras, então, em busca de maior rentabilidade, apostam no que é “certo”, que são aquelas obras que já se provaram como sucesso de vendas no exterior, e deixam o “incerto” (novos autores) para as pequenas e médias editoras. Vê-se uma quase incoerência: as grandes, que poderiam correr mais riscos, não se permitem atuar fora do critério de avaliação baseado em números.

4 – O mundo literário carece de bons profissionais?

Érica Bombardi - Não, há uma grande reserva de mão de obra qualificada. Temos ótimos profissionais de texto, de design, de crítica, de arte etc. O que falta é que eles sejam devidamente valorizados. Quando o mercado não mais atribui o devido valor a um profissional, achata a qualidade de seu serviço ao vê-lo como similar a um não tão qualificado. Por exemplo, um preparador de texto é um profissional que se dedica ao texto, tem prática com estruturação, com a norma culta da língua, geralmente sabe mais de um idioma e ajuda o autor ao indicar trechos que devem ser mais desenvolvidos para seu melhor entendimento de acordo com o público leitor. O que o mercado faz é não diferenciar esse profissional, por exemplo, de qualquer falante da língua materna, assim, todos são preparadores, revisores etc.

5 – O que seria a Ofício Editorial?

Érica Bombardi - A reunião de amigos, especializados na área editorial, que querem dedicar seu tempo para a realização de serviços freelance em todas as etapas da produção do livro, com especial enfoque na área de texto. Queremos, também, suscitar o debate entre os profissionais do livro com escritores e leitores. A ideia é problematizar o fato de que a nova literatura brasileira é prejudicada diante da realidade das grandes editoras que só publicam best-sellers estrangeiros. Onde está o lugar do novo autor brasileiro? Um de nossos projetos, que idealizamos em nossa “leitura crítica” é ajudar o escritor a ter uma avaliação de seu texto, como a que seria feita internamente em uma editora. Assim o escritor tem ideia do que as editoras realmente pensam quando recebem seu texto e ele terá a chance de fazer alterações com intuito de adequar sua obra ao mercado e de também resolver os pontos fracos que atestariam contra sua qualidade.
(Visitem o blog: http://www.blog.oficioeditorial.com.br/ e nosso trabalho http://www.oficioeditorial.com.br/ . Precisamos pensar todos juntos.)

6 – Com que frequência você lê?

Érica Bombardi - Todos os dias. Leio vários livros ao mesmo tempo: tenho um para antes de dormir, outro para ler durante as horas de estudo, outro para levar na bolsa caso fique presa no trânsito ou em alguma sala de espera, os que separo para ler para meu filho. Além de ler livros, tenho também de procurar posts interessantes na internet, como blogs de autores, páginas de críticos literários, notícias dos jornais internacionais sobre o mercado editorial, revistas nacionais, comic books, textos enviados por escritores etc.

7 – Cite alguns de seus livros de cabeceira e autores preferidos.

Érica Bombardi - O livro que mais reli é O caso da borboleta Atiria, de Lucia Machado de Almeida, da série Vagalume, quando eu tinha uns 8 anos. Digo isso pois acho que o que mais lemos é a literatura das escolas e as exigidas no vestibular.
Tudo o que lemos fora desse circuito iniciado na obrigatoriedade é que nos define como leitores.
Gosto de ler de tudo. E gosto de ler 1 livro ao menos de cada gênero dentre os tantos da ficção.
Na prosa internacional, o meu preferido é Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Adorei os clássicos internacionais, como Ligações Perigosas, de Choderlos de Lacros; Memorial do Convento e Ensaio sobre a Cegueira, de Saramago; A metamorfose, de Kafka; O Amante, Marguerite Duras, também gosto de Salinger e Mario Vargas Llosa. Um dos autores da atualidade que gosto por seu apelo ao público geral (desde crianças até adultos) é Neil Gaiman. Ele iniciou sua carreira como escritor de comic books, e escreve hoje livros para todas as faixas etárias. Sua narrativa é envolvente, sempre inteligente e com humor. Em comics, gosto de Frank Miller, Will Eisner, Falk Lee. Para histórias para crianças, Michel Ende (Momo e o senhor do tempo, História sem fim), Andersen. Li muito ficção fantasia e acho que esse é um caminho pouco explorado no Brasil (pelas editoras), mas promissor.
Na prosa nacional, gosto muito de Guimarães Rosa, gosto dos contos de Machado de Assis (e do Memória póstumas...), respeito Clarice Lispector, gosto dos contos de Lygia Fagundes Telles e li muito Erico Verissimo. Gostei de ler os estudos de Câmara Cascudo.
Na poesia, não tenho um livro ou autor predileto, mas guardo todos onde posso consultá-los sempre que quiser. Indico Fernando Pessoa, Sylvia Plath, Kavafis, Drummond, Cecília Meireles, Arnaldo Antunes, Cazuza, Renato Russo.
O importante é o autor deixar para o leitor um sentimento, um nó no estômago, algo que o faça parar e pensar.

6 – Chegam muitos originais à mesa dos editores? Qual a qualidade deste material?

Érica Bombardi - A editora em que trabalho é acadêmica, então não recebo originais de ficção (às vezes, alguns autores me enviam seus originais e, quando posso, leio e passo uma rápida opinião e indicação de qual editora procurar). Os textos acadêmicos normalmente vêm de professores, mestres e doutores, então a qualidade já foi atestada pela universidade.
Mas eu leio um pouco do que encontro na internet e posso dizer que achei um conjunto equilibrado. Mas há poucos textos brilhantes. Normalmente os escritores que li tentam reinventar o estilo de um outro escritor ou versam sobre assuntos muito explorados no mercado. O escritor brasileiro tem de, primeiramente, dedicar-se a escrever corretamente e bem (de acordo com a norma culta, em narrativas coesas e coerentes, saber usar a vírgula e a estruturar parágrafos; sem vergonha de estudar), e depois a desenvolver narrativas com algum diferencial. Não se apegando tanto à história que conta, mas àquela que quer que seu leitor apreenda de seu texto. Um texto é tão mais rico quanto mais polissêmico.

7 – Faltam autores de boa literatura?

Érica Bombardi - Acho que o escritor está tão escondido, com tão pouca visibilidade, que eu não saberia dizer. Creio que há muitos textos de baixa qualidade, sim; mas, inexplicavelmente, esses aparecem mais do que os bons quando publicados. A questão mais cruel não é a que faltem bons escritores, mas sim que esses escritores não terem muito espaço para serem devidamente avaliados nas editoras e pelo fato de não ser estimulado no Brasil o hábito da leitura. O livro ainda é muito caro, o acesso às bibliotecas não é tão fácil/usual quanto o às locadoras de filme.

8 – O que se vê nas prateleiras das livrarias e jamais alguém veria em suas estantes?

Érica Bombardi - Falo de meu gosto pessoal: não gosto dos livros “seja feliz, rico, bonito, poderoso”, pois são recheados de bobagens ou de senso comum ou encharcados de uma ideologia capitalista mascarada. Esses não faço questão de ler, uma vez que já os conheço. Mas, por força do hábito, me levo a ler alguns dos mega ou best-sellers que aparecem para conhecer o que se produz no mercado e o que o público está lendo. Normalmente faço algumas anotações sobre estrutura, enredo, personagens e doo o livro. Não gosto de livros que não me deixem a vontade de reler.

9 – Diz-se que no Brasil se lê pouco. Em outros países, ao contrário do que se pensa, há queixas muito semelhantes. Como se explica, portanto, os números que apontam cerca de 1 bilhão de reais girando direta ou indiretamente no ramo apenas no Brasil?

Érica Bombardi - Tem-se que registrar aqui um detalhe importante. O Brasil é um dos maiores países jovens no mundo, ou seja, um dos países com mais público adolescente e jovem, e que estão nas escolas. Assim, a maior venda de livros é certamente para escolas, são os livros didáticos e paradidáticos. As vendas para o governo são o eldorado desse mercado e provavelmente o que desperta tanto interesse nos grupos internacionais.

10 – Em sua opinião o que poderia ser feito e quem poderia fazê-lo pelo bem da literatura?

Érica Bombardi - Acho que essa questão poderia se estender a todas as áreas de conhecimento, pesquisa e ação. Estamos vivendo uma crise de valores, uma crise do capital dentro do capitalismo, uma crise do indivíduo perdido em seu individualismo. Tudo é muito fugaz e passageiro. A literatura indica um pouco isso. As obras mais prestigiadas são aquelas que dão a sensação de satisfação imediata. Parece que estamos perdendo o gosto pela leitura demorada, pela narrativa proustiana, pela leitura como fonte de metáfora. A literatura hoje tem de servir de alívio para as necessidades de fuga da realidade, ao mostrar narrativas melosas ou em estilo vídeo-clipe, ou servir como um conselheiro e amigo, nos livros de autoajuda.
Sinceramente não sei o que podemos fazer para ir contra a maré. Faço o que posso, trabalho em um ambiente que valoriza o autor, busco em meu tempo livre ajudar os novos escritores e debater as questões que mais me preocupam com meus colegas, leio sobre isso, escrevo sobre isso. Montamos a Ofício Editorial agora para aumentar o debate e tentarmos pensar juntos. Acho que podemos fazer simplesmente isso. Seguir de acordo com nossos ideais e tentar discuti-los com nossos pares. Podemos também não estar certos, não? Acho que podemos manter a inteligência e cultivar a dúvida.


Agradecemos à gentil participação de Érica Bombardi. Obrigado!

2 comentários:

Anônimo disse...

Que bela entrevista, adorei!
Bjos
Beth Finholdt

Anjo LIndo e Loiro disse...

Vc poderia publicar uma outra entrevista muito boa, de um autor que li ha algum tempo. Vale muito a pena!!!! Espero por novos textos aqui no blog. Pra variar estou curiosissima!!
Beijoss