1 de jun de 2009

E Se... (ou O Que Deu Errado no Mundo?)


E se os amigos e a família do primeiro cara que foi assassinado no mundo não tivessem revidado e sim perdoado o assassino? E se o cara que teve sua propriedade invadida, deixasse ficar, ao preço de um quinhão de trabalho? E se os “criminosos”, por sua vez, tivessem compreendido que tinham feito coisas inaceitáveis e passassem a apregoar justamente o contrário? E se, consequentemente, as duas partes se unissem e convivessem de forma pacífica, fazendo o possível para extrair da natureza apenas o que realmente precisassem para sobreviver, tentando, de maneira inteligente, compensar os danos causados plantando ou criando animais na mesma quantidade que estivessem extraindo? E se, sabendo-se inteligentes o bastante para equilibrar o próprio meio em que viviam, essas pessoas desenvolvessem modos de adquirir mais bem-estar, praticidade e produção de itens básicos simplesmente para seu próprio bem, para que a vida, enquanto durasse, fosse o mais prazerosa possível? E se, assim, todos, bem menos do que somos hoje, tivessem acesso a absolutamente tudo? E se, vivendo da melhor forma possível, todo mundo tivesse tempo, energia e motivação para escrever, compor, filmar, desenhar, fazer arte, ou refletir pura e simplesmente, se assim quisesse?

Não há uma espécie de ditado que diz que a infância é a melhor parte da vida? E por que precisávamos ir tão longe?

Engenheiros continuariam úteis, militares não. Administradores continuariam úteis, seguranças não. Artistas continuariam úteis, oportunistas não. Médicos continuariam úteis, planos de saúde não. Colunistas continuariam úteis, fofoqueiros não. Veterinários continuariam úteis, rebanhos criados a torto devastando áreas produtivas não – porque não seríamos tão numerosos, uma vez que já teríamos descoberto que o importante não é ter um sem-número de filhos, mas criar os poucos que tivéssemos da melhor maneira possível. Lembra que eu falei que sobraria tempo para refletir e não para enterrar um monte de queridos mortos à toa e/ou orquestrar planos mirabolantes de retaliação? Que sobraria tempo para planejar, descobrir que o importante é viver - e bem - ao lado de quem a gente ama? E que, inteligentes que fôssemos, seguiríamos sempre o primeiro exemplo, o que não foi movido pela vingança?

Daí você me diria: vaidade é uma característica inata ao ser humano. Busca por poder, materialismo, superioridade – qualquer uma – está conosco desde o momento que botamos o pé no planeta. Eu te perguntaria: será mesmo? Por que não encontro uma fagulha de nada disso em mim e em várias outras pessoas que me cercam? As que parecem ter, a meu ver, travam diariamente uma luta pessoal para se encaixar. Se pensassem um pouquinho mais antes de escolher, seriam bem diferentes. E devolveria a pergunta: e se o tal do mundo não fosse assim? Se a sociedade fosse totalmente diferente? Não é meramente ponto de vista?

Não estou querendo dar uma da John Lennon, de “Give Peace a Chance” e o escambau, não é isso. Eu só quero saber quem foi que determinou que isto aqui era um ringue gigante de marmanjos no gel se digladiando eternamente para descobrir quem é o mais bem-dotado (mulheres inclusas). Quem foi que disse que era pra ser uma competição sem fim? Ouvi dizer que a ideia era a de que fosse um planetinha habitável, supostamente criado para que pessoas, animais e plantas simplesmente vivessem. Lengalenga hippie idealista? Então alguém me explique por que se criaria um mundo determinado a se escafeder dali um tempo, simples assim? Ainda que não haja ninguém por trás do plano, por que uma espécie se desenvolveria, geraria descendentes e viveria para... nada? Nem uma ameba seria tão estúpida. Se não conseguir, me explique por que diabos a gente sempre seguiu um ponto de vista totalmente míope, o do cara que procurou vingança, poder, autoridade, ser melhor que o outro? Por que não podemos fazer diferente? Porque não caberia a nós, uma vez que nem aqui estaríamos, a verdade é esta. Num mundo planejado de maneira equilibrada, não haveria superpopulação, não haveria reprodução a toque de caixa. Assim sendo, não haveria má qualidade de vida, porque todos estariam em busca do melhor para todos. Não haveria quem tivesse que procurar emprego do outro lado do país porque as metrópoles estão sufocando de gente. Não haveria uns atropelando outros. Não haveria o primeiro no vestibular, o vencedor da dinâmica de grupo, a top model. Não haveria amados indo embora para procurar alternativas longe, tampouco uma necessidade que foge ao bom senso de ter sempre mais. Mas também não haveria saudade, horror à despedida e um bom tanto de sofrimento que hoje temos que enfrentar. Porque todos seríamos poucos. O conceito de "todos" talvez nos excluísse. Eu e você provavelmente não estaríamos aqui. Nem para sentir saudade. Valeria o sacrifício?

(crônica e gentil colaboração de Luciana Toffolo, crítica de música e literatura, colaboradora do portal Omelete, entre outros.)

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