27 de abr de 2009

Online

Cena de abertura do filme "Matrix", dos irmãos Wachowski, livremente inspirado, e repudiado, pelo filósofo francês Jean Baudrillard.

Depois das horas que ela fora obrigada a passar sob o sol escaldante, a fim de resolver as mesmas questões que, todos os meses, entre os dias 5 e 10, sempre surgiam – receber a pensão, pagar contas, comprar mantimentos – finalmente Aline adentrava o seu apartamento.

O ar-condicionado, após certo período de inatividade devido a um defeito mecânico, enfim climatizava o quarto em temperatura próxima dos 20º graus. Aline se sentia tentada a apertar os botões do controle remoto e diminuir ainda mais a temperatura. Porém, o risco de se resfriar e ser obrigada a procurar um médico, a dissuadia. Não se pode ter tudo na vida, não é?

Precisava tomar banho. Antes disto, e mais urgente do que qualquer outra coisa, ligar o computador. Régua de tomadas, estabilizador, gabinete e monitor. Esperar o sistema ser inicializado e todos os softwares necessários aos primeiros cliques serem carregados.

Abrir os programas que sempre eram acessados nos primeiros minutos. Conectar. Mensageiro eletrônico. Software de execução mídias. Respondera  um ou outro email e mensagens enviadas enquanto estivera offline. Checar em sua lista de amigos aqueles que se encontravam conectados. Deixar o CPU ligado. Volume alto para que pudesse ouvir do banheiro os toques de aviso. Quem entra, sai, envia mensagens.

Agora sim, podia despir-se. Despida ela tinha a certeza de que a temperatura era ainda mais agradável. Por que não andava sempre nua pela casa, já que morava só? Estranhos os pudores escondidos no subconsciente! Seria a mesma sensação de desconforto que sentia ao pisar com os pés descalços sobre o carpete do quarto? Certa agonia, mamilos eriçados, pele arrepiada, libido? Enfim, era dúbio, agradável e constrangedor. Hora do banho.

Banheira, preparo de refeições, limpeza doméstica, atender à porta, qualquer momento transcorrido longe da tela anti-reflexiva do monitor, não era um tempo muito tranqüilo. Aline sempre se deparava com a sensação de perda, estar de fora, deixada de lado. Logo ela dava um jeito de se acomodar na confortável cadeira giratória.

Era praxe Aline respirar fundo duas ou três vezes. Harmonizar-se com aquele universo tão vasto. Então recuperava os bate-papos dos amigos, conhecidos e desconhecidos, rolando a janela até o instante em que ela abrira o mensageiro e partira para o banho.

Era uma pena não ser possível ir além daquele ponto. Frustrante constatar a limitação da memória binária da máquina, que nunca ia além do momento em que o Start principiava o inundar de correntes elétricas nas vias de níquel dos circuitos, antes latentes, mortos, imprestáveis. O hard-disk não era uma consciência propriamente dita e muito menos onipresente.

Quase nunca os papos, que rolaram antes de sua definitiva presença no virtual, pareciam interessantes. Tudo começava no exato instante de sua chegada. Era quando a vida recuperava os trilhos. Em nenhum momento antes ela vivera realmente. Preparara-se para a vida, infância, adolescência, juventude, mas uma peça de teatro só cumpria o seu verdadeiro desígnio quando as cortinas se abriam e os olhos dos espectadores brilhavam. Os acontecimentos anteriores não passavam de ensaios.

Mesmo assim, a fim de se inteirar de que nada realmente acontecera de importante antes de sua intervenção, bem como para encontrar argumentos, Aline lia os diálogos que se sucederam enquanto ela estivera no banho.

Salas de bate-papo. Ou chats. E não importava se temáticos ou livres. Para quem acessasse pela primeira vez aquele espaço virtual, os assuntos pareceriam os mesmos, e banais. Aline sabia que não era como a primeira impressão sugeria. Quase dois anos acessando as mesmas salas, revelavam as mais diversas interações. Sobretudo daqueles que se tornavam assíduos e, em algum momento, inclusive, chegavam a se professar como amigos.

Naquele instante um sujeito de nick Sttepenwolf, por exemplo, estava conectado. Ele já conversara com Aline (que costumava usar o seu primeiro nome como nick) um sem-número de vezes. Em determinada altura, os diálogos se tornaram assíduos e Sttepenwolf chegara a atribuir a ela o papel de confessora.

Às vezes Aline se perguntava qual era a mágica daquele infinito espaço virtual. As pessoas se revelavam sem temores. E, mesmo aqueles que criavam personagens, na verdade, agindo assim, espelhavam o mais íntimo de si. E a confiança com que falavam, sem nunca ter olhado nos olhos, segredos e conflitos íntimos, após meras trocas de palavras, durante poucos minutos, a intrigava. Seria devido ao relativo anonimato?


(Trecho do livro Online, que descansa na gaveta, à espera de tempo livre, sorte ou inspiração.)

3 comentários:

Anjo Lindo e Loiro disse...

Não ha palavras pra descreve o que seti lendo essa linhas, me emocionei!!!!!!!! Sem mais nada pra dizer sobre esse texto e a Aline.

Anjo Lindo e Loiro disse...

Não consigo deixar de ler esse trecho!! Estou louca pra ver os outros.

Beth Finholdt disse...

De talento indiscutível e qualidade impar! Admirável mundo novo descortinado por estas palavras, que não são apenas palavras...é sentimento vivo!