2 de jul de 2008

Non Sense, No Papas II (Entrevista - Rui Carlos Souto)

Dupla Fé. Fotografia by Marcelo Cyrpiano, 2012.

O Entrevistado 

O poeta Rui Carlos Souto, autor do livro “A Poesia dos Pequenos Insectos”, entre outros. 


O Tema – Ateísmo ou Religiosidade? 

Âmbito do Debate - Recentes pesquisas dão conta de que 75% dos europeus, das mais diversas faixas etárias, declaram-se ateus. Outras pesquisas, realizadas nos demais continentes do ocidente, apontam números bem semelhantes ou acentuada curva ascendente rumo ao ateísmo. O que poderia estar ocasionando o singular fenômeno e como seria uma sociedade constituída por esmagadora maioria de ateus? 

Considerações Iniciais de Rui Carlos Souto – Texto Pessoal Sobre Ser ou Não Ser Ateu 

Estar ou não na presença de Deus? Não perfilhar nenhuma religião ou não aceitar Deus? 

A vida com uma racionalidade especifica que nos afasta de Deus. O Homem que escolhe o mundo na sua materialidade, desenganando-se da sua espiritualidade. O domínio da matéria sobre o espírito. O Homem como uma máquina bio-social, de fundo racional. O Homem como um animal inteligente. Uma vida finita contrariando a eternidade que a presença de Deus, promete. 

Um Homem sem horizontes, perante a catástrofe da morte. Talvez como o mito de Sísifo de Albert Camus. O Homem sentindo-se na sua própria casa. Tentando o mundo na sua finitude, perante a possibilidade de uma catástrofe. O Homem despojado da sua inércia, tornando-se um deus dominador. Dono do seu mundo e do seu destino. Uma Homenipresença em vez da omnipresença de Deus. O Homem em conflito com Deus sem fé e sem esperança. É com estas duvidas que o homem se apodera de si de Deus e dos outros. Que pensamentos para o futuro? 

O ateu acredita que o homem com as suas possibilidades, construiu o mundo à sua imagem e semelhança; o crente acredita que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. São duas atitudes diferentes perante a vida.O ateu corre o risco de sentir perante o mundo a catástrofe da morte como algo de aterrador; o único destino possível. O crente sente a eternidade como um imperativo categórico, perante a qual esta vida não passa de um sacrifício ou um sofrimento continuado. São duas posições antagónicas nas quais não se vislumbra nenhuma certeza. 

Perguntas – Rui Carlos Souto preferiu responder a todas as questões de uma só vez através de outro texto de sua autoria. Portanto, as perguntas seguem abaixo em sequência, seguidas pelas considerações do poeta. 

1 – O aumento vertiginoso do número de ateus é reflexo do momento em que os interesses humanos se voltam quase que estritamente ao material? O crescimento espantoso das religiões chamadas como protestantes (sobretudo nas camadas mais pobres da sociedade) poderia ser citada como exemplo, visto que prometem sucesso material, enquanto outras vertentes religiosas acenam apenas com a recompensa pós-morte? (Eleonora - São Paulo) 

2 – Acredito que o caríssimo poeta se esquivou de responder aos questionamentos propostos pelo blog. Gostei muito do texto que ele apresentou, mas não esclarece a opinião do autor sobre crescente número de ateus. Sei que temas polêmicos como religião causam certo constrangimento, mas gostaria de perguntar se a crença em Deus não tende realmente a diminuir conforme o conhecimento científico elucida a verdade. Há espaço no mundo moderno para que o progresso do conhecimento científico e as superstições e mitos convivam em harmonia? (Sebastião Tomaso Borges - Ponta Porã) 

3 - Estou a pensar quais as fontes da pesquisa que indica 75% de europeus ateus. Considerando a hipótese de as fontes serem confiáveis, no entanto, vejo-me a imaginar um mundo em que as crianças não recebem instrução religiosa – que, ainda que por vias tortas, acaba dando a elas certa base do que é certo ou errado. O mais importante daquilo que aqui se discute, segundo penso, não é ser ou não ser ateu, mas as consequências para sociedade. O que produziria esta sociedade, que já não anda muito sã (se é que já fora um dia), mas descrente quanto a uma vida depois da morte física e existência de um ser onisciente e onipresente, a lhe orientar os passos e servir de esteio? Talvez eu esteja enganado, mas prevejo consequências graves. Não seria o caos? (José Gomes Arêas - Porto) 

4 – Basta conhecer um pouco de História para saber que as religiões, de uma maneira geral, são um dos piores males para a sociedade. Instrumento usado pelas instituições políticas a fim de cercear o ser humano, incutir o medo, a inércia, a continuidade daquilo que é prejudicial. Já disseram, e muito bem dito, sobre o ópio do povo. Não sou contra a crença em Deus, porém não acredito que haja a necessidade de intermediários falhos, que se proponham, com o seu falho caráter, repito, a servir de ponte entre o ser humano e seu suposto Criador. As pessoas não seriam mais livres e felizes se não houvessem instituições religiosas? (Adriana Toledo - Caldas Novas) 

5 – Quantas guerras já não foram travadas em nome de “preceitos religiosos”? Quantas ainda serão travadas antes que o ser humano perceba o verdadeiro nome do mal? Respondendo à pergunta proposta pelo blog: uma sociedade completamente constituída por ateus, seria uma sociedade com menos guerras. O prejuízo é nulo. Trocamos dogmas fantasiosos pela verdade e razoável paz. (Iran Macedo Alcobaça) 

6 – Toda a grande quantidade de ateus que se vê nos dias atuais foi prevista há muitos séculos. Já diziam muitos livros sagrados que poucos seriam os escolhidos na hora do julgamento para estarem ao lado de Deus após o Juízo Final. Trata-se de separar os fiéis dos infiéis, os bons dos maus, o certo do errado. Muitos esperam anjos tocando trombetas, mas a escolha acontece a olhos vistos e de maneira natural. Muitos ainda se dirão ateus e depois se arrependerão. Como poderia ser diferente? O que este número tão grande de pessoas que se dizem ateus, poderia significar senão o cumprir dos dizeres de tantos profetas? (Neide - Vitória) 

7 –– Gostaria de comentar apenas que, ao ler a obra de Albert Camus, sempre tenho a impressão de que o autor negava, sim, a Deus com o seu niilismo, mas sempre desejoso de que alguém lhe provasse a existência divina. Aproveito a oportunidade para perguntar a opinião pessoal do autor, bem como dos visitantes, sobre o que pensam do moribundo Niilismo. (Henrique - Lisboa) 

Rui Carlos Souto - Entre ser ateu e crente há muitas nuances. Há gente que acredita em Deus e não se filia em nenhuma religião, como há muita gente com fé que se divide pelas religiões existentes. Umas mais sectárias que outras. Não vou discutir aqui as grandes religiões, nem as suas diferenças. Assiste-se todos os anos a milhões de fieis por todo o mundo que aderem a rituais de pertença e que seguem os seus lideres. Há sempre gente com mais ou menos fé. Mas o que interessa é a atitude, uma atitude de fraternidade condizente com a liberdade de cada um ou uma atitude de inimizade que arrasta atrás de si o ódio. Hoje no mundo profano estas atitudes são abraçadas tanto por crentes como por ateus. O que interessa é a atitude perante a vida e os outros, aqui é que está o busílis da questão. Toda a gente conhece o conservadorismo e o puritanismo de muitas igrejas, mas o importante é que a consciência individual não se deixe soçobrar perante esses modos de estar e de olhar. 
Se Deus morreu ou não, se a esperança no futuro não existe ou se pelo contrário é cada vez maior, depende de um modo de olhar a realidade e de a perscrutar. Muitas discussões incidem hoje na tentativa de igualar o transcendente ao imanente ou pelo contrário de o superlativar. Mas todas essas discussões são estéreis porque o Homem não se deve deixar deprimir pelas circunstâncias do mundo, não se pode estar no mundo com medo, proveniente seja de que Deus for. O Homem deve olhar nos olhos de Deus, se é que ele existe, como deve pensar de forma crítica nas atitudes das Igrejas. 
A liberdade de consciência e de escolha, deve ser condizente com as ideias, mas só a cada um de nós diz respeito e não devemos deixar interferir nela qualquer chantagem dos mais média ou pressão do quotidiano. 


Agradecemos ao poeta Rui Carlos Souto pela participação e a todos aqueles que enviaram suas observações e perguntas. Àqueles que não tiveram seus apontamentos publicados, peço gentilmente que se sintam representados pelos participantes acima, pois suas colocações sintetizam de maneira geral os aportes mais recorrentes. Obrigado!

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