13 de mar de 2008

O Pastor


 "Le Suicidé". Manet, 1877-81.

O pastor é meu. Dizem que ele é a ponta da flecha que mostra à sociedade para onde se deve caminhar, mas não: ele é só meu! Aleluia! Ele é um moreno alto, bonito e gostoso. Os ternos que usa escondem os seus músculos rígidos, mas eu sei o quanto ele é gostoso.

É uma delícia a culpa que o pastor sente depois que fazemos amor. Parece uma criança ajoelhada a pedir perdão ao Pai, sentindo culpa por alguma bagunça, não dividir o doce. Adoro, nesta hora, lembrar-me das palavras que o pastor me dissera ao ouvido, alguns minutos antes. Sua voz trêmula e ofegante, o suor a escorrer pelas faces... são tantos palavrões!

Enquanto goza o pastor sempre diz sacanagens. Xinga baixinho. Palavras que mais se parecem com elogios. Depois é só esperar! Logo ele se senta na beirada da cama e passa os dedos entre os cabelos. Fica quase uma hora orando, é uma graça! Então nos vestimos e saímos um ao lado do outro, as nossas mãos se esbarrando.

Quase sempre é hora de irmos para os cultos. O pastor faz questão de que eu esteja presente. O sangue de Jesus tem poder! Suas pregações são invariavelmente entusiasmadas. Acho que a tal culpa que ele sente funciona como uma espécie de combustível. Fico feliz por ajudá-lo, aleluia!

O pastor salta agora, enquanto faz perguntas e exorcissa os demônios de uma convertida.

Ah!, o pastor! Lembro-me de quando o conheci, o tanto que ele me ajudou. Deixei até de fumar e tomar álcool! O Pai seja louvado! Costumava freqüentar igrejas ultrapassadas e centros espíritas, mas o pastor salvou a minha alma me levando para a sua cama.

No começo foi difícil. A sua mãe não aceitava o nosso relacionamento! Porém, Deus fez os Seus arranjos, logo a velha morreu, a casa ficou por conta do nosso amor. Aliás, o nosso amor era bem exacerbado!
Nunca foi tão dolorido - o pastor é grande! E olha que já tive alguns namorados, mas nenhum era assim, tudo de bom. E exatamente por isto era tão bom ele me agarrando na sala, cozinha, banheiro. Sempre uma grande novidade!

Hoje somos mais tranqüilos, mas não frios. Acho que manter o nosso “caso” escondido é de grande ajuda. Sei que os fiéis da congregação apenas fingem não conhecer a nossa história, porém, o pastor é respeitado. Ninguém ousaria infringir este respeito.

Além disso, a estabilidade do seu emprego, o salário modesto, mas acima da média, contribui para que estejamos sempre bem. Até por que todos sabem que o pastor é só meu.

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