26 de mar de 2008

Non Sense, No Papas I (Entrevista - Vitor Vicente)


Tem início nesse post a série de bate-papos (entrevistas) intitulada Non Sense,No Papas. A ideia é propor temas e perguntas às mais diversas personalidades, que se disporão a discorrer sobre o tema e responder às questões, bem como contar com a colaboração do amigo-visitante-leitor deste blog, que enviará perguntas e observações durante os próximos 30 dias. Tais contribuições dos leitores serão repassadas ao entrevistado semanalmente. As respostas serão acrescidas em 4 atualizações semanais a este post.

O blog se reserva o direito de revisar as perguntas ou observações enviadas, porém, em nenhum momento, o conteúdo será alterado; apenas a forma, quando necessário, em prol de melhor compreensão a respeito do que se diz. Portanto, não há censura quanto à maneira de o leitor se expressar, podendo ele se sentir à vontade para dizer o que lhe vier à cabeça, ainda que isto implique palavrões, xingamentos, etc, desde que as perguntas e observações estejam de acordo com o tema proposto pelo blog. Vale ressaltar que ao entrevistado será reservado igual direito de responder sem restrições.

Entrevistado 

Vitor Vicente é o nome da primeira personalidade a participar dos bate-papos (entrevistas). VV é editor da Canto Escuro. Publicou livros como “Esses Dias – henrykiller.blog”, “Tríptico do Narciso”, “Noites Contadas”, “História com Pênis e Cabeça”, além de ter dado corpo a publicações de autores como Henrique Manuel Bento Fialho, Líria Porto, Rui Carlos Souto, Luís Paulo Meireles. Lusitano de nascimento, que hoje se comunica através do seu português de diáspora, VV colabora com diversos sites e blogs, muitas vezes partilhando com os leitores afins os relatos de suas vagamundagens sem fim. 

O Tema – Criação Artística na Idade Contemporânea 

Considerações Iniciais – Antevisão da Arte (por Vitor Vicente) 

Antes de mais e mais que tudo, à arte exige-se a autonomia. A autonomia face aos poderes políticos, económicos, religiosos e aos demais poderes sociais. Inclusive aos próprios poderes artísticos. À arte exige-se autonomia absoluta. 

Assente a autonomia, a arte pode dar expressão ao eterno. Com efeito, dar expressão ao eterno não exclui a expressão de personagens em particular numa situação singular, sempre que esta circunstância se inscreva nas inquietudes infinitas e quasinsondáveis do espírito humano. 

Pode parecer penoso e pesado o encargo do artista, mas logo – ao darmos conta que não existe encargo efectivo – veremos que não lhe custa nada. Custa-lhe tanto menos, quanto mais gosto lhe der. Como tudo o que se faz por gosto, pouco ou nada cansa. E Assim sacode os pesos pesados da sociedade. 

Até ver. A autoridade antecipou-se ao artista e ocupou-lhe as margens com marionetas onde antes se manifestava o génio artístico. 

Na nossa era, da arte pós-pop, o eleito pela posteridade continua a ser o execrado pelos seus circundantes e contemporâneos e pensar pela própria cabeça não se premeia com uma coroa mas sim castiga-se e com uma cruz para transportar às costas. É mais previsível adivinhar como se vai aniquilar o artista do que como este irá tentar escapar aos embustes. Aniquilar passará pela criação em série de pretensos artistas ou pseudo-artista e pela educação em massa de ilustres anónimos que olvidarão a sua incolor condição imitando os seus ídolos. Ao artista, no meio da mixórdia, cumpre assumir a autenticidade e vislumbrar a vida. 

Perguntas 

1 – Defender a autonomia das artes não implica em isentá-las de responsabilidades sociais? A História mostra que vários movimentos sociais surgiram a partir de manifestações artísticas. Separar arte de política não seria o mesmo que abdicar justamente do que poderia resultar em valiosas mudanças para a vida em sociedade? (Reinaldo - Rio de Janeiro) 

Vitor Vicente - Sim que implica uma isenção. Uma isenção infinita. A absolvição. A absoluta absolvição. O artista, ao resgatar a consciência livre, leve e lúdica à criança, está desculpado do seu desleixo e desinteresse drásticos para com o social. A vida em sociedade encontra-se num espaço específico e a arte eleva-se ao etéreo tempo que atravessa todos os tempos, a eternidade. 
A arte não tem por que estar comprometida com o social. A arte é a criação pela criação. Ainda que o artista conte como foi o seu contexto contemporâneo, sempre o fará para captar o que consegue do coração humano. 
Que da arte tenham derivado movimentos sociais, é algo quas’alheio ao artista. Não tem, todavia, que os desdenhar, mas tampouco que se sentir dignificado. 

2 - Quanto a “aniquilar o artista pela criação em série e educação de massa”. E se a estética almejada pelo artista for justamente uma que se quadra aos subjetivos e hipotéticos padrões? O que dizer de determinadas expressões, como certas obras de Andy Warhol? (Anônimo - Ansião/Portugal) 

Vitor Vicente - O maior mérito e legado da Obra do Andy Warhol está em encontrar um caminho criativo entre a originalidade que lhe sai da sua própria cabeça e o que lhe pede em coro a carneirada humana. Aprecio no Warhol esse exercício de estilo e equilíbrio, uma autêntica acrobacia. 

3 - Concordo com o texto. Gostaria apenas que se fizesse maiores comentários especificamente sobre a literatura. O que Vitor Vicente acha dos livros que hoje em dia abarrotam as prateleiras das livrarias, coisas do tipo Paulo Coelho, autoajuda? (Neumâne - Campo dos Goytacazes) 

Vitor Vicente - Nunca li uma linha saída da pena do Paulo Coelho. A minha companheira de piso tem as “Obras Completas”, mas até hoje ainda não lhe pedi nenhum emprestado. No comboio, também aqui em Espanha, quase tanto como em Portugal, o Paulo Coelho tem bastantes leitores. Mas eu tendo, por esnobismo, a identificar a literatura de transporte público, ambulante, com lixo. Talvez seja um preconceito infundado. Talvez não, pois infundado é. Certo é que o pouco que me chegou do Coelho nunca me deu ganas de que me chegasse mais. Mas não conheço o suficiente para poder falar com certidão científica. 
Vejo os livros de autoajuda, tal como com a música, como uma consequência da degeneração do objecto livro na democracia criativa. Mas também abstenho-me de alongar por me faltar a certidão científica que igual me faltam a Coelhos. 

4 - Racionalizar As Artes não seria o mesmo que impor-lhes padrões? (Rui - Lisboa) 

Vitor Vicente - Tudo participa dum padrão, já lá dizia o Platão e com razão! Mesmo quando se trata dum não-padrão, estamos a reger-nos por um padrão às avessas. Tudo, quer dizer, tanto artistas e homens, pois em todos os artistas há um homem, mas nem em todos homens há artistas. Não se trata, no entanto, de uma imposição, senão que da própria natureza do processo de criação brota um padrão, ou uma matriz, um mapa. 

5 – Intervenção do blog – Falando sobre o ponto de partida da criação. Acreditando que a inspiração ou criação parta do exterior, não chegaríamos ao pensamento daqueles que equiparam o trabalho artístico com psicografia ou canalização? O artista não perderia grande parte do mérito pela obra, vendo-se obrigado a dividir a autoria com a invisível assinatura do “astral”? É possível conjeturar sobre o ponto de onde parte a inspiração? Todo o trabalho artístico parte da inspiração? 
5.1 - Sou artista plástico e discordo sobre a inspiração vir do exterior. Pelo menos em parte, não está correto, pois o ímpeto à criação parte do artista. Creio que caberia a uma “entidade” apenas a escolha do indivíduo para a realização de um trabalho diferente do comum. Se eu pudesse, em várias ocasiões da minha vida, certamente teria escolhido outro trabalho. Não pude fazê-lo por que o ímpeto à criação não é silenciado conforme os nossos desejos. Pergunto: não partiria a inspiração da união entre o ímpeto do artista à criação e a ideia que vagueia por aí à procura de expressão e corpo a fim de que se realize? (Delcídio Braga - Campinas) 

Vitor Vicente - A inspiração nunca pode ser exterior, tampouco totalmente interior. A própria palavra inspiração sugere algo interno, por exemplo, o impulso de responder a um estímulo. A criação pode assim ser vista como uma caça em que o criador captura a presa antes que esta se torne predador. 

6 - Afirmar que nem tudo se pode dizer a respeito das artes, mesmo sendo estas oriundas do infinito, não seria impor limites à ilimitada capacidade humana de questionar e sondar respostas? Já diz o ditado que “toda pergunta já nasce com uma resposta”. Quando alguém consegue conceber uma pergunta, depois de raciocinar com zelo sobre determinada questão, certamente está preparado para ouvir ou chegar a uma resposta. Penso no ser humano como a entidade ilimitada que, de acordo com o desenvolvimento de suas faculdades, pode chegar até questionamentos que antes pareceriam insondáveis. (Amaral Lopes Vargas - Buenos Aires) 

Vitor Vicente - Somos infinitamente ilimitados. Existe, todavia, quem se rebele contra os eixos em que encarceram o ser humano. Prometeu, por exemplo, ofereceu o fogo aos homens. Alguns incineram o lixo do mundo, outros preferem entreter-se com fogos de artifício. 

7 - A ideia de eleitos e não-eleitos, lembra-me muito certas “correntes de pensamento”, que se espalharam pela Europa e tomaram principalmente a Alemanha, durante os anos 1930 e 1940. As consequências nós bem conhecemos. Cito, sobretudo, a 2ª Guerra Mundial, o holocausto. Deixar-se guiar pelas elites não seria dar por demais respaldo às piores teorias de Nietzsche? Não seria dar base a iniciativas como “limpeza étnica” e outros abomináveis atos humanos? (Andrade Barreto - Águeda) 

Vitor Vicente - Há que não nazificar o Nietzsche, quando muito nietzschanizar os nazis. Estou, de claro, a abonar pelas elites, mas, entenda-se, não a estratificar por etnias mas sim como cada um encontra a expressão do eterno no espírito humano. 

8 - Como alguém poderia ser anulado como homem? A “Obra”, como criação do artista, é sempre menor que o próprio artista, não? Como poderia anulá-lo? (Ramón - Madrid) 

Vitor Vicente - Para muito boa gente, a missão de se ser artista é como uma bomba caída nas mãos e que a deixam estoirar, ficando reduzidos abaixo do razoavelmente humano. Sempre existirão quas’artistas como existem desde sempre quas’anjos. 

9 - Doação diabólica apenas no sentido figurado, não é? Apenas dado o observador e desconsiderando o ponto de vista do doador, pois não? Tu precisas considerar o objetivo da “entidade” no instante da doação. Certamente o propósito não seria diabólico. Apenas o homem o considera como tal, já que não conta com ampla visão sobre todos os aspectos, e, portanto, sente-se atormentado, pelo menos até dar vazão à Obra que a “entidade” está sugerindo. Se soubesse ver de uma maneira mais ampla e atemporal... No fim das contas, porém, e por mais que se negue, tudo isto é muito místico para o meu gosto. E digo mais: a impotência do teórico francês em executar suas teorias não corrobora o caráter falho da teoria? (Douglas Porto Alegre) 

Vitor Vicente - Diabólico e divino são duas faces antropomórficas da mesma moeda. Mais que místico, tudo é absolutamente humano, até ao absurdo. 


Agradecemos ao Vitor Vicente e a todos aqueles que participaram enviando as suas observações e perguntas. Seria impossível publicar todas as colaborações, portanto, o blog procurou trazer à tona aquelas participações que, de alguma maneira, pareciam sintetizar os tópicos mais recorrentes. Obrigado!

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