4 de mar de 2008

O Princípio, Os Meios, Os Fins


"Gostaria de lhe propor um pequeno “gesto revolucionário”, como se dizia antigamente. Que neste princípio de ano, só desta vez, você não faça nenhuma daquelas promessas, assim... de princípio de ano. Mesmo porque – lembra de 2007? – não adianta nada. E ainda que adiantasse, não resolveria. Suponhamos que você colocou para si mesmo os seguintes objetivos: freqüentar a academia vizinha da sua casa; ganhar aquela sua vizinha (ou vizinho); merecer um salário parecido com o de seu chefe; comprar um carrão; encher a casa de livros (meio esquisito, isso...). Mais: digamos que você atingiu essas metas. Congratulations!

Pausa. Lembrei-me daquela propaganda, na tevê, sobre um jornal. Dois carinhas andam que andam e acabam chegando ao topo de um morro alto. Lá de cima, dá pra ver bem longe. Vista magnífica. Daí os tontos se entreolham e gritam “Urru!”, “Oié” ou coisa parecida. Após três segundos de êxtase, travam esse diálogo sublime: “Vam’bora?”; “Vamo”. E descem. Fecha com um slogan, tipo: “Quem sabe, aproveita mais”.

Claro, é importante lutar para se conseguir meios de alcançar as próprias metas. É legal ter um corpo marombado, é fenomenal estar na companhia de outro corpo marombado, é supimpa vocês desfilarem num possante ou então assistirem juntinhos a uma TV mega-hiper-blaster que fica numa estante cheia de livros coloridos. No entanto, de que adianta ter isso tudo se vocês não fazem companhia um ao outro, se o trânsito está infernal, se o seriado é uma droga e se você nem gosta de ler?

De que serve eu ter o norrau, se não sei o “know why”? Adianta acumular dinheiro, equipamentos, cursos, milhagem profissional e ainda cumprir resoluções estapafúrdias se não atino com o porquê disso tudo? Os meios podem até adiantar... mas não resolvem. Fundamental é descobrir os fins, que dão graça e beleza a todo o resto. Mas, como fazer? Voltemos ao princípio desta conversa.

Antes de correr feito um louco atrás de tanta tranqueira, seria mais produtivo – só desta vez – dar uma paradinha. O mundo é enorme e está cheio de descobertas a fazer, de paisagens a admirar e de surpresas a receber (quais? “Surpresa!”). O tal “gesto revolucionário” que lhe proponho neste início de 2008 é fazer um pouco de silêncio, em meio à balbúrdia que nos envolve. E escutar o que o mundo tem a dizer, mundo mais vasto que nossas promessas, que são do nosso tamanho, tão pequeninas... Pode não resolver, mas já é um começo."

(ensaio e gentil colaboração de Jorge Claudio Ribeiro, professor da PUC-SP, editor da Editora Olho d’Água.)

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