10 de mar de 2008

Carta ao Reitor


"The Three Judges". Georges Rouault, 1936. 
    
         “Caro Reitor,

Sou aluna do quarto período no curso de Artes Visuais de sua universidade. Venho comunicar, através dessa breve carta, sobre o meu afastamento deste e qualquer outro curso que visse a formação de "artistas".


Poderia muito bem deixar de freqüentar as aulas, ir à secretaria e cancelar a minha matrícula, sem a necessidade de escrever essas linhas e tomar o seu tempo. Poderia fazê-lo, mas não seria algo justo, muito menos fácil de se esquecer. E não pretendo cultivar nenhum arrepedimento que futuramente me devore a alma.


O objetivo da presente correspondência é colocá-lo à par da minha revolta e descrença quanto aos cursos ministrados em todas as universidades, ou pelo menos nas universidades cujos nome e institucional tive a oportunidade de ler, em algum panfleto ou informativo.
Citarei abaixo, em ordem numérica, os motivos que me levam às citadas revolta e descrença, mas me concentrarei unicamente na universidade que conheço, onde "vossa senhoria" é reitor. Por ser uma das principais universidades do país, para não dizer uma referência em boa parte do mundo, conseqüente e humildemente estendo as minhas críticas a todas as outras instituições de ensino que se vê erguidas mundo afora.


1 - O critério de avaliação para o ingresso de novos alunos é completamente equivocado. No curso de artes há de tudo: médicos, engenheiros, açougueiros, advogados, comediantes etc. Salvo raríssimas exceções, só não há artistas. Ao invés das inúmeras exigências impostas aos candidatos, para o ingresso no citado curso, não seria melhor levar em consideração apenas a vocação ou ausência dela? 
2 - A escolha do corpo docente também deveria ser observada com maior zelo, já que é uma aberração. Afinal, o que é mais importante? Aprimorar a criatividade ou a capacidade de copiar, a criação ou a reprodução? É mais importante mostrar os instrumentos que existem ou passar uma lista dos materiais que foram usados por artistas  de outros tempos e fizeram a fortuna dos mercenários que os usurpavam? Não seria melhor ensinar o aluno a reconhecer os instrumentos, ao invés de limitá-los às rédeas do mercado?
3 - As primeiras palavras que ouvi de um professor de arte foi que “as grandes obras já fora
m produzidas”, ou seja, sugerindo que era melhor copiar a técnica e no máximo ser digno do artista que a perpetrou.
    1º- Não vejo o meu trabalho senão como criação, e não“produção”, como Henry Ford queria que todas as coisas fossem concebidas;
    2º- É triste dar início a uma pintura em tela, por exemplo, pensando que as grandes obras já foram "produzidas", quando na verdade as mais belas obras estão por vir. Segundo penso, o futuro é bem menos limitado do que o passado. Acredito que o problema com a "qualidade" dos professores é semelhante ao dos alunos. Dariam excelentes mestres se atuassem nas profissões para as quais tinham vocação (que nos dias de hoje é desprezada em prol da necessidade ou ganas pelo dinheiro). Licenciaram-se em arte, talvez por falta de opção ou equívoco de julgamento, e deu no que hoje temos. Ensinam o que não sabem à nova geração de artistas nulos, nesta postergação da mesmíssima coisa, numa repetição sem fim que atinge a todos humanos do mundo moderno.
4- A insistência em usar modelos predefinidos na criação artística é ridícula,. É pretender definir de modo ignóbil o que há de mais indefinível. Pode ter dado certo e resultou em algumas exceções, obras de arte genuínas, mas criar a partir daí é estuprar a fórmula e continuar num coito interminável e pouco viril, abandonando todas as chances de se criar a partir do
hoje. A criação só é genuína se deixar livre a abstração, caso contrário, persistimos na revisita e muito precariamente, originando sem-número de trabalhos sem "alma". Obviamente não se pode generalizar, mas a crítica serve praticamente à totalidade. A graça está em descobrir jogos novos, e não há concorrentes, apenas parceiros.

Tudo isto me levou à desistência. Havia muito mais a ser dito, mas creio que a carta já está muito extensa. 


“Quem é ela para dizer essas coisas?” -, pode estar se perguntando.
"Ninguém!" -, eis a resposta. 


Não sou ninguém e prefiro seguir adiante buscando apenas não afogar em meio à multidão de autômatos a me tornar o óleo que lubrifica essa máquina de produzir em série.


Sei que essas páginas serão amassadas e jogadas no lixo. Quem daria ouvidos às palavras raivosas de “ninguém”? Mas não dou importância! Não me arrependo! Quando percebi que o mundo se transforma, a olhos vistos e passos largos, em algo que me entristece - inclusive o mundo que considero como sendo o meu, o único em que me sinto à vontade -, vi também que jamais seria aceita ou me enquadraria neste paraíso dos clones. Faço questão de não me silenciar mesmo ciente de que as minhas palavras ecoarão no vazio!

Uma última coisa: você também é culpado pelo que vem acontecendo! Falo em favor da arte, mas um reles estalar de dedos, e não a fé, pode mover montanhas. A arte também carrega o mundo a uma direção sem volta. É uma influência sutil, mas contribui para este caminhar rumo ao abismo, como todo o resto.


Aonde quer que cheguemos (como antevejo: a uma padronização de tudo, inclusive do próprio ser humano), com as suas atitudes, você também é culpado. Em sua área poderia atuar de forma diferenciada, contribuir em prol de mudanças sendo você mesmo, e não só mais uma peça a sustentar a máquina.


Sinto muito! É assim que enxergo as coisas! Faça o que quiser das minhas opiniões e até nunca mais!

Assinado: XXXXXXXX.”

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