7 de fev de 2013

São Thomé das Letras



Era um adolescente cheio de besteiras, levando junto aos passos ainda menos “conteúdo” do que carrego hoje em dia, quando pisei pela primeira vez sobre as pedras esbranquiçadas e esfarelentas que constituem o calçamento da cidade de São Thomé das Letras. O município ainda era aclimatado pelo ar de ingenuidade que caracteriza os vilarejos que passaram longas décadas – quiçá séculos? – sem estabelecer estreitos contatos com a “civilização em redor”. 

Não que a crescente visitação de turistas tenha tornado São Thomé menos especial do que ela fora um dia. Não que eu necessariamente tenha me tornado mais completo como ser humano após ler “meia-dúzia” de livros e descobrir o ímpeto pelas mudanças. Somos apenas diferentes! 

A minha primeira impressão a respeito da cidade, todavia, não foi lá muito favorável. A simplicidade de suas estradas de terra batida, construções de pedras sobrepostas, as mesmas que revestem o calçamento, levaram-me à associação direta com penosa pobreza. Há os que veem beleza na pobreza e a defendem como uma linha cultural singular, assim como outros acusam os primeiros de “inimigos do progresso”. Eu me abstenho de tal discussão e somente não considero a pobreza um demérito, mas naquele dia, a paisagem que avistava através dos vidros das janelas do ônibus da excursão turística da qual eu era guia, provavelmente por puro preconceito que acabava de vir à tona, fez com que eu sentisse pena dos habitantes que ali viviam em meio a tal simplicidade. 

http://ecoviagem.uol.com.br/blogs/eduardo-andreassi/viagens-nacionais/sao-tome-das-letras-10398.asp

São Thomé das Letras me apresentaria a outras possibilidades, porém, inclusive perspectivas diferentes de organização social, que não necessariamente implicavam em seres humanos julgados a primeira vista pelo valor de suas posses materiais. Pouco a pouco, percorrendo ruas de pedras e estradas de terra, conversando com os nativos ou os poucos e atípicos turistas que a São Thomé visitavam e retornavam a cada par de meses, fui tocado de maneira que nem sequer saberia dizer o quanto do que hoje eu sou se deve àquele lugar. 

Voltaria muitas outras vezes a São Thomé. Pelo menos doze outras vezes guiando excursões e outras quatro como “mero visitante”. Inúmeros os momentos em que tive a oportunidade de testemunhar que não era inédito alguém mudar seus pontos de vista, ideais, caráter, a partir do instante de sua primeira visita a São Thomé das Letras. As excursões e interações ecoavam em algumas boas amizades e pude perceber o quanto as pessoas mudavam a cada viagem. Não eram poucos aqueles que choravam copiosamente no instante em que o nosso veículo adentrava as ruas da cidade e/ou quando partíamos de volta para casa – conceito falho: “nossa casa”, visto que “deter” propriedade sobre um lugar, não significa que nos sentiremos propriamente “em casa”.

http://excursaothome.blogspot.com.br/2011_05_01_archive.html

Certa vez, acompanhando grupo de cinco turistas que desejavam comprar alguma peça do artesanato local para guardar de lembrança, acabamos indo ter com tranquilo artesão de passagem por aquela região.

- Poxa! Falamos a pouco com outro artesão que estava pedindo o dobro do preço por esta mesma peça! -, disse uma das turistas que eu acompanhava. 

- O material que ele usa deve ser de melhor qualidade! -, respondeu o artesão. 

Acontecimento de sutil significado que jamais trancorreria em “lugar comum tomado pela voracidade do mercado”. “Eles cobram realmente caro!” -, diria o atendente em qualquer centro de compras, desvalorizando o “produto” alheio. E se trata de pequeno exemplo de tudo o que pude vivenciar em São Thomé das Letras, incluindo rara solidariedade, além de inusitadas passagens. Como a do dia em que conversei com outro dos inúmeros artesãos sempre presentes em São Thomé. Ele se decidira há tempos fixar residência na área rural do município. Estava revoltado, pois a companhia de energia elétrica instalara rede de energia nas redondezas do sítio que ele ocupava, obrigando a sua família a também encher de cabos de eletricidade a residência simples onde moravam. Lembrei-me imediatamente das propagandas televisivas governamentais, que mostram parcerias do Estado com as companhias de energia para levar eletricidade até as famílias de locais mais inóspitos. Estes comerciais sempre mostram sorridentes habitantes que agora tinham acesso às “maravilhas da modernidade”. Aquele artesão, no entanto, não estava contente. Eles viviam felizes à luz de lamparinas. 

http://www.flickr.com/photos/khan-nakamura/4787500877/

Sim! A energia chegou à área rural de São Thomé das Letras, assim como o asfalto hoje recobre boa parte das estradas que levam ao alto da Montanha Abençoada. O crescimento do turismo fatalmente doaria aos habitantes traços da sofreguidão vivida no “mundo capitalista” (motivo maior para que eu tenha deixado de trabalhar com excursões). As piscinas e residências dos abastados, em tempos de “progresso” acelerado pós-boom-econômico, exigem cada vez maior quantidade do quartzito que as pedreiras (sob milionária concessão da igreja, proprietária da maior parte dos terrenos explorados) explodem e retiram do solo de São Thomé das Letras. Várias cachoeiras tiveram as suas nascentes soterradas e não mais existem. Grutas de rico valor histórico estão ameaçadas. A paisagem é modificada a cada dia e a olhos nus, enquanto me pergunto se não teria sido melhor se ninguém mais, além dos habitantes seculares, tivesse pisado sobre aquelas pedras. Será que os habitantes não se perguntam a mesma coisa? 

Seja como for, São Thomé das Letras ainda guarda os seus encantos, bem como exibe inominável beleza. Após quase cinco anos sem ir lá ter com os meus próprios pensamentos, demônios, alegrias e tristezas; cinco anos sem conversar com aqueles de quem me sinto tão próximo, porém, a voz que me chama me parece até mais nítida e forte do que clamou nos primeiros tempos. Chego a sentir o vento constante e gelado a desvelar tudo o que eu nunca esqueci. A estrada que trilho todas as noites em sonhos ansiosos. Os caminhos de terra batida que eu sou.

http://www.tripadvisor.com.br/LocationPhotos-g1102708-Sao_Thome_das_Letras_State_of_Minas_Gerais.html

Publicado originalmente no On The Road.

7 de jan de 2013

O Estrangeiro - Albert Camus



“Foi pouco depois que ela me escreveu. E foi a partir desse momento que começaram as coisas de que jamais gostei de falar. De qualquer forma, não vale a pena exagerar, e isto foi mais fácil para mim do que para outros. No início da minha detenção, no entanto, o mais difícil é que tinha pensamentos de homem livre. Por exemplo, desejo de estar numa praia e de descer para o mar. Imaginando o barulho das primeiras ondas sob as solas dos pés, a entrada do corpo na água e a libertação que encontrava nisso: sentia, de repente, até que ponto as paredes da prisão me cercavam. Mas isto durou alguns meses. Depois, só tinha pensamentos de prisioneiro. Aguardava o passeio diário no pátio ou visita do advogado. O resto do meu tempo, eu coordenava muito bem. Nessa época, pensei muitas vezes que se me obrigassem a viver dentro de um tronco seco de árvore, sem outra ocupação além de olhar a flor do céu acima da minha cabeça, eu teria me habituado aos poucos. Teria esperado a passagem dos pássaros ou os encontros entre as nuvens tal como esperava aqui as estranhas gravatas do advogado, e, como num outro mundo, esperava até sábado para estreitar nos meus braços o corpo de Marie. Ora, a verdade, afinal, é que eu não estava numa árvore seca. Havia pessoas mais infelizes do que eu. Era, aliás, uma ideia de mamãe, e ela repetia com frequência que acabávamos acostumando-nos a tudo.”

(O Estrangeiro by Albert Camus. Editora Record, 2003.)

Publicado originalmente no Rainbow & Wafer.

22 de dez de 2012

Sem Olhos em Gaza - Aldous Huxley (ou: Sobre a Justiça)

http://www.examiner.com/article/charlotte-greenwood-montreal-s-answer-to-michelangelo-part-2

“Passei boa parte da noite discutindo sobre a paz e a justiça social. Mark, com esse sarcasmo e esse tom desagradável com que sempre se refere a Miller (que ele chama “o seu avatar neo-cristão"), dizia: – Se os suínos quiserem estripar-se mutuamente, que o façam; é coisa, afinal, que ninguém poderá impedir. Um suíno é um suíno. – Pode tornar-se humano, insisti eu. Homo non nascitur, fit. Ou antes, pode aproveitar os elementos e potencialidades humanas já constituídas e com as quais ele nasce. 
O argumento de Helena era o habitual argumento comunista – não pode haver paz ou justiça sem uma preliminar liquidação dos capitalistas, liberais e outros que tais. Como se pudéssemos conseguir paz e justiça com o emprego de meios violentos e injustos! Os meios determinam os fins e devem estar à altura dos fins visados. Os meios intrinsecamente diferentes dos fins propostos só podem conduzir a fins que lhes equivalem, e jamais àqueles fins para cuja consecução são empregados. A violência e a guerra hão de produzir uma paz e uma organização social contendo em seu bojo mais violência e mais guerra. A guerra para terminar a guerra resultou, como de costume, numa paz essencialmente igual à guerra; a revolução com o fim de conseguir o comunismo resultou num estado hierárquico em que uma minoria governa por métodos policiais à la Metternich-Hitler-Mussolini e em que o poder de oprimir em virtude de ser rico é substituído pelo poder de oprimir em virtude de ser membro da oligarquia. Paz e justiça são coisas que só se obtém por meios justos e pacíficos. E as pessoas só se comportarão com justiça e pacificamente, se se houverem exercitado individualmente nesse sentido, ainda menos em circunstâncias em que seja mais fácil conduzir-se violenta e injustamente. E esse treino, essa educação, devem ser simultaneamente físicos e mentais. Conhecimento do modo de agir, de se servir de si próprio, assim como do fim a que essa ação visa.”

(Sem Olhos Em Gaza, by Aldous Huxley. Editora Globo, 1980.)

Publicado originalmente no Rainbow & Wafer.

Jaci e Anônimo II

Jaci. Elizabeth Finholdt, 2009.

Anônimo II

“Acho que aquele sujeito está nos seguindo...”
“Carregando tantas malas? Quem seria louco a ponto de se carregar de tal volume para depois seguir os outros?”
“Às vezes a sua ingenuidade me impressiona! Não percebe que as malas não passam de um disfarce? Você se esqueceu do programa policial a que assistimos no último domingo? Os bandidos andam se disfarçando! Até mesmo uniformes da polícia eles têm!”
“Sei não...”
“Acredite no que eu estou lhe dizendo! Imagine a quantidade de armas que se pode carregar naquelas malas! Não devemos facilitar. Por que não mudamos de trajeto?”
“Agora você está satisfeito? Seremos obrigados a caminhar o dobro da distância a fim de chegar ao trabalho...”
“Deus nos deu pernas pra quê? Tínhamos que nos livrar do bandido das malas! De qualquer maneira, precisamos continuar atentos. Somente no mês passado ocorreram cinco assaltos nesta mesma calçada. Os ladrões levaram todos os pertences dos transeuntes. Certo rapaz chegou a ser espancado por estar sem dinheiro. Você trouxe algum dinheiro?”
“Sabemos que não. É fim de mês! Estamos sem dinheiro e...”
“Eu não acredito! Como alguém pode sair por aí sem uns trocados nos bolsos? Não lhe avisei que todos os meses faz-se mister reservar algumas notas para repassar aos bandidos? Corremos grande perigo graças à sua teimosia!”
“Jamais tivemos que entregar nenhum centavo a qualquer que fosse o criminoso. E se você bem observar, esta rua é completamente deserta. O ladrão que resolver assaltar por estas bandas provavelmente morrerá de fome ou...”
“Às vezes me pergunto se realmente ocupamos o mesmo corpo. Quisera eu ser a consciência de alguém mais sensato! Esqueceu de fazer o dever de casa? Não se lembra das ocorrências policiais da semana passada?”
“Lembro-me de cada linha delas. Sempre leio os jornais e assisto aos programas policiais da TV, porém, nunca topamos com um bandido e...”
“Até agora a sorte esteve ao nosso lado! No entanto sempre há a primeira vez... Acontecem cinco assaltos anuais para cada habitante desta cidade. Não dá para contestar seríssimos dados estatísticos! Certamente, cedo ou tarde, chegará a nossa vez. Talvez no momento em que estivermos dobrando a próxima esquina. A fila anda depressa e os criminosos adoram esperar suas incautas vítimas escondidos em lugares desertos como esta rua. Você trouxe o aparelho de choque? Está com o spray de pimenta ao alcance das mãos?”
“O spray está no bolso. A carga da bateria do aparelho de choque, quando muito, dá para umas três descargas bem fraquinhas. Será o suficiente? E se os criminosos resolverem fazer um arrastão?”
“Fique calmo. Basta retornarmos às ruas mais movimentadas. Afinal, a esta hora, o bandido das malas já deve ter escolhido outra vítima – que certamente se deixará enganar pela volumosa bagagem. Cidadão pobre coitado! Aprenderá da pior maneira que não se deve tomar como base de orientação unicamente a aparência das pessoas! Seja como for, podemos voltar à rua principal e...”
“Logo agora que já estamos tão perto?”
“Melhor se atrasar do que perder a vida!”
“Pode ser. Mas o gerente vive reclamando de nossos atrasos...”
“Ele não sabe nada sobre a gente. Ignora os arriscados caminhos e os perigos que suplantamos a fim de trabalhar naquele supermercado!”
“Mesmo que soubesse, não se comoveria. E no fim das contas, o nosso salário depende da boa vontade do gerente. Não podemos...”
“Talvez fosse até melhor ele nos despedir!”
“Não! Precisamos de dinheiro e...”
“Dinheiro, dinheiro, dinheiro! Já que dependemos tanto dele, por que não abrimos uma firma prestadora de serviços via telefone? Contratamos dois ou três funcionários para realizar as entregas e nem sequer precisaremos sair de casa. Sabia que as chances de se sofrer qualquer tipo de violência é três ou quatro vezes menor quando se está trancado em sua residência?”
“Que tipo de serviços poderíamos prestar?”
“Sei lá! O que realmente importa é a nossa segurança! Eu tenho que pensar em tudo? Inventamos qualquer coisa! Hoje em dia é possível comercializar qualquer artigo por telefone. Ninguém tem a necessidade de ultrapassar os portões de sua casa. Seria maravilhoso se ninguém saísse! Posso até imaginar: a sociedade três ou quatro vezes menos violenta! Um paraíso de cercas elétricas, condomínios fechados, janelas blindadas!”
“Chegamos de volta ao centro. Pelo menos por enquanto, esqueçamos os sonhos! Temos que correr! Ainda dependemos do salário e...”
“Não quero alarmá-lo, porém...”
“Diga logo de uma vez!”
“O bandido das malas caminha bem à nossa frente...”
“Não é possível!”
“O dia não deve estar muito favorável à prática de assaltos. O sujeito não encontrou nenhuma vítima potencialmente razoável. O jeito será andarmos bem devagar...”
“Que sujeito chato! Fez com que nos atrasássemos terrivelmente! Enfim chegamos ao supermercado, mas o nosso emprego está por um fio. Você ouviu as ameaças do gerente?”
“Para ele é muito fácil sair por aí guiando o seu carro do ano com vidros blindados. Basta não se arriscar obedecendo aos sinais de trânsito. As coisas seriam bem diferentes se possuíssemos um carro com vidros blindados!”
“Agora temos que nos concentrar. Veja só o tamanho desta compra! Não podemos errar ao digitar os preços!”
“É mesmo uma compra muito grande. Ou o cliente é rico ou acabou de cometer um sequestro relâmpago. Provavelmente está querendo lavar o dinheiro do crime. Trata-se de um delito bastante em voga nos dias atuais!”
“Detesto bandidos! Viu só o desprezo com que o atendi? Onde já se viu? Sequestrar e depois vir tranquilamente ao supermercado fazer compras e lavar o dinheiro sujo! E justo no meu caixa?”
“Deixe de bravatas e...”
“O que foi?”
“Nada! Não olhe!”
“Você é a minha consciência! Não pode me esconder...”
“Outra vez o bandido das malas. Ele realmente deve estar nos seguindo!”
“Como os seguranças puderam ser relapsos a ponto de o deixarem entrar nas dependências da loja com toda aquela bagagem?”
“Meu Deus! Ele está vindo em nossa direção!”
“Controle-se!”
“Não posso!”
“Se você não se controlar, como é que eu vou fazer?”
“Você me pede o impossível! Não notou o olhar que ele nos dirigiu? Não percebeu a fúria em seus olhos de pálpebras caídas? E quanto àquela gravata? Não ouviu dizer que todos os psicopatas usam gravatas borboleta? É como se fossem crachás de identificação de serial killers!”
“Pois eu manterei a calma. O supermercado está lotado. Apenas na fila do nosso caixa encontram-se dez ou quinze pessoas. Certamente o louco das malas não cometeria seus crimes num lugar tão movimentado. Além do mais...”
“Como não cometeria seus crimes? Como não? Todos os serial killers adoram notoriedade. Você não se lembra do rapaz que descarregou a metralhadora nos espectadores de uma sala de cinema? E quanto aos moleques que atiraram em seus colegas de escola? Os assassinos adoram se exibir!”
“E se o louco das malas estiver com um facão? Talvez ele não resista ao impulso e nos decepe com um único golpe! Decapitados em pleno supermercado! E se ele for daquele tipo de psicopata que disseca suas vítimas e as guarda dentro do freezer do porão? Não me agradaria nem um pouco virar estrogonofe ou coisa que o valha. Ainda pior seria...”
“Não adianta fazer suposições. Está chegando a hora de atender o louco das malas e você mesmo disse que o melhor será manter a calma. Caso contrário... Veja só! Ele está mexendo numa das malas!”
“Meu Deus!”
“Controle-se! O que será que ele apanhou?”
“É o facão! É o facão! Ou talvez seja um punhal... Punhais encerram centenas de significados ocultos. Assassinos em série adoram usar instrumentos com significados ocultos! Estamos perdidos!”
“Por enquanto, não. O louco está apenas observando. Parece estudar o ambiente. Tem-se a impressão de que está impaciente. Está a ponto de...”
“Cinquenta caixas, milhões de habitantes, gente soberba ou humilde, gente corrupta ou honesta... Por que ele foi escolher justo a nós como vítimas?”
“E por que não escolheria? Lembre-se das estatísticas! Ainda hoje não lhe disse que os números não mentem? Não conseguiríamos passar incólumes pela conjuntura pelo resto de nossas vidas! Cedo ou tarde sofreríamos alguma espécie de constrangimento. Pena que tenhamos sido eleitos por um psicopata e não por um mero assaltante. De qualquer maneira, só o que nos resta é tentar nos defender...”
“Jamais pensei que um dia apareceríamos nos programas policiais...”
“Seja otimista! Podemos posar como heróis e não como vítimas!”
“O que me revolta é que dezenas de câmaras espalhadas pelo supermercado não valeram para que os vigias reconhecessem as feições do criminoso. Não é um absurdo?”
“Só prova o quanto a sociedade está despreparada para o futuro...”
“O que você quer dizer? Eu tenho esperanças de que o futuro será melhor! Psicopatas planejando assassinatos na fila do supermercado... Como o futuro poderia ser ainda pior?”
“Todos os dias temos provas de que o futuro será ainda pior. O que você me diz, por exemplo, dos problemas socioambientais? Os recursos estão se tornando escassos. Ninguém faz nada efetivo para que a situação amenize. Imagino o futuro nos moldes daqueles filmes à la Mad Max. Será cada um por si disputando a machadadas coisas simples como um copo-d’água ou mirrado prato de comida. O ser humano adotará brutais práticas há tempos esquecidas, como o canibalismo, limpeza étnica, a câmara de gás... Precisamos nos preparar para o futuro e o primeiro passo é nos livrarmos das inúteis e ingênuas utopias. A experiência com o louco das malas poderá até nos ser muito útil! E já que voltamos ao assunto: está chegando a hora de nós o atendermos!”
“Você me distraiu!”
“Controle-se!”
“Ele está enfiando a mão no bolso! É agora que saca o punhal!”
“Aguarde o momento certo para agir. Assim teremos como nos justificar com a polícia!”
“Vou ensinar este filho-da-puta...”
“Este é o espírito!”
“É agora?”
“Só mais alguns segundos... Ele tirou a mão do bolso! É agora ou nunca!”
“Você observou a cara do bandido quando lhe aplicamos o primeiro golpe?”
“Agimos com tanta rapidez que ele nem teve tempo de pensar...”
“Não sabia que choque na altura dos rins era tão dolorido! Ele até se ajoelhou!”
“O spray de pimenta completou o serviço. Os olhos do psicopata pareciam imensas minas d’água jorrando lágrimas sem parar...”
“Uma pena ele estar desarmado. Se o tivessem levado preso...”
“Hoje desarmado. Amanhã com uma escopeta apontando o crânio de qualquer transeunte. Anime-se! Somos heróis!”
“Pode ser. Mas o sujeito enganou a polícia. Ainda por cima perdemos o emprego!”
“Isso não tem a menor importância! Sabemos que o sujeito era um sanguinário serial killer. Tínhamos a obrigação de reagir ainda que isso nos custasse o emprego. Salvamos o dia! Sorria!”
“Agora realmente precisaremos pensar no tal serviço por telefone...”
“Prestar serviços por telefone? Você enlouqueceu? O tempo corre depressa meu caro! Agora somos heróis, você se esqueceu? Não podemos nos diminuir prestando serviços por telefone. Merecemos muito mais!”
“O que você quer dizer?”
“Às vezes sinto vergonha por sermos a mesma pessoa...”
“Vencemos o psicopata? Sim, e daí? Perdemos o emprego! A sobrevivência depende de dinheiro e ninguém paga alguém por atos de heroísmo! Quando muito se ganha uns tapinhas nas costas...”
“Dinheiro, dinheiro, dinheiro! Não pense tão pequeno! Não se prenda a detalhes vãos! Somos especiais! Por que não nos tornamos que nem aqueles justiceiros mascarados dos filmes de ação? Que tal? Não é genial?”
“Continuaríamos precisando de dinheiro e...”
“Embolsaríamos o dinheiro dos criminosos tão logo os mandássemos para o inferno!”
“Não seria o mesmo que roubar?”
“Muito pelo contrário! Seria dar justo fim ao objeto do crime. Trata-se de uma troca muito justa. Livraríamos a sociedade da imundície que ela espalhou. Em contrapartida a sociedade nos sustenta. O que acha?”
“Não sei...”
“Não seja covarde! Vamos dar fim à escória! Lugar de bandido é no cemitério!”
“Os justiceiros não possuem armas?”
“Não receberemos o acerto do supermercado? Qualquer vendedor ambulante poderá nos informar onde conseguir uma metralhadora a preço módico...”
“Não sei...”
“Não seja medroso! Bandido merece é chumbo grosso! Não é o que dizem as entrelinhas dos programas da TV?”
“E quanto aos familiares dos criminosos?”
“Antes só do que mal acompanhado!”
“Não se consola uma família da perda de um parente com ditados populares...”
“Sejamos práticos! Melhor sofrer um pouquinho durante um ou dois dias e se livrar de uma vez por todas de toda a porcaria!”
“E os direitos humanos? A criminalidade não é um problema social? Dizem que...”
“Blá-blá-blá! Tudo conversa fiada! Caso contrário todos os pobres seriam bandidos e nenhum rico o seria!”
“Todos os seres humanos cometem pequenas ou grandes crueldades. É tudo uma questão de caráter! Conforme as pressões das circunstâncias, uns caem, enquanto outros sobrepujam. Não sei se sair por aí matando criminosos seria remédio ou...”
“Remédio? Você está brincando? Bandidos merecem é veneno! Não quero mais ouvir você falando essa baboseira sobre o “caráter dos Nibelungos”. Crime é falta de vergonha na cara! Delinquentes não têm cura! Pau que nasce torto nunca se endireita! E quanto aos bons? Você acha justo eles serem obrigados a conviver com tanta brutalidade?”
“Não sei se os bons são realmente bons. Toda questão envolve lados diversos que nunca são exibidos na íntegra pelos programas da TV ou citados nas ocorrências policiais. Intencionalmente ou não...” 
“Realmente há diversos lados. Porém apenas uma linha os divide. Tal linha serve para que possamos discernir entre covardes e corajosos. Você não gostaria de viver num mundo livre de medos? Então mostre coragem e aja! É hora de recolhermos o lixo! Vamos dar o exemplo! Vamos nos armar!”
“Não sei...”
“Não seja vacilão! Estou me decepcionando com você!”
“Está bem. Vamos tentar encontrar a tal metralhadora...”
“Gostei de ver! É assim que se fala! Senti firmeza!”


Jaci 

Aos leitores cuja hipocondria não os induziu a uma pesquisa sobre o assunto em pauta; àqueles que não conhecem por não se dedicarem à medicina ou simplesmente não se interessarem por psicologia e/ou psiquiatria; aos amigos que não tiveram a oportunidade de participar de assembleias, palestras, enquetes a respeito do tema central das linhas abaixo subscritas, segue com singela dedicatória uma sucinta explanação.

Entende-se por Transtorno Bipolar o mal psicossomático outrora chamado de Psicose Maníaca-depressiva.
Trata-se de doença que pode acometer qualquer ser humano sem que ele sequer desconfie da enfermidade. O indivíduo que sofre de Transtorno Bipolar costuma atravessar períodos de extrema euforia. Não dorme durante noites seguidas. Percorre festas, apronta todas as presepadas possíveis, cativa os semelhantes com sua exultante, porém passageira simpatia.

A seguir, não mais que de repente, o enfermo entra num estado de profunda depressão. Não sai de casa, chora sem nenhum motivo em particular, tortura-se assistindo a uma reprise de Titanic ou Ghost. Pensa em suicídio como os políticos pensam em cifras e dígitos. Muitos bipolares chegam ao ato extremo de se matar, pois tudo se torna por demais intolerável. A simpatia do período eufórico transforma-se em irritante rabugice e as pessoas se afastam. Resta apenas a insuportável solidão.

Diante dessas breves informações, mas não querendo engrossar a fila dos hipocondríacos que tomam qualquer sentimento humano como um cárcere, rabisco a seguinte pergunta (e conto com a perspicaz ajuda dos leitores para chegar a alguma resposta): será possível que eu, Jaci Alex Max Rigoto, sofra de Transtorno Bipolar? Serei eu acometido pela citada enfermidade, porém, interagindo com o meu ser, tal doença adquiriu caracteres deveras singulares – sintomas que se diferenciam um bocado dos mal-fadados extremos do humor?

O problema é que respondo a mui semelhantes circunstâncias de distintíssimas maneiras. Não saberia explicar com todas as letras o que se passa comigo. Às vezes passo pelos acontecimentos com incrível competência. Aproveito ao máximo as situações para aprender e ensinar. Sucede uma troca para a qual a cordialidade quase sempre abre as portas.

Acredito firmemente que diálogos engrandecedores podem nascer do mais trivial cumprimento. Toda e qualquer circunstância é propícia para a troca de experiências pessoais. Sempre é possível escolher as frases mais convenientes em prol do aprendizado recíproco.

Contudo, em certas ocasiões parece que me esqueço de tudo em que acredito. Retorno à crueza dos tempos da infância, torno-me bufão, o cúmulo da irônica grosseria. Repito que perante a mesma deixa sou capaz de responder com teores completamente distintos, opostos, paradoxais. Resposta tipicamente bipolar.

A adversidade de minhas intervenções (ou seria melhor dizer bipolaridade?) se manifesta maiormente, quando o assunto discutido entre amigos envolve temas de interesse geral. Então vacilo entre a brandura didática e a explosão de ódio.

Às vezes os pensamentos que passam pela minha cabeça são como o vento forte a entoar sua amena canção. Tais pensamentos parecem querer me levar como o vento parece querer. Mergulho na sensação de estar voando suavemente para bem longe, e já posso vislumbrar belíssimas e inusitadas paisagens, que me esperam e anseiam.

A branda conjuntura acima exposta faz com que as palavras fluam por meus lábios com natural cordialidade. Elas contribuem para a relevância do diálogo e conquistam o respeito e admiração dos ouvintes.

Caso o assunto em debate, por exemplo, seja a crescente violência e criminalidade no mundo moderno, explico habilmente que de nada adianta se concentrar apenas em combater o crime em si. Melhor seria lidar com as causas que levam as pessoas a praticá-lo. Senão corremos o risco de um dia o número de indivíduos condenados e encarcerados vir a ser maior do que o dígito a apontar a população a caminhar por aí.

Obviamente é o momento em que sempre surge alguém para inserir certos conceitos retrógrados. Pena de morte ou coisas desse tipo. Ainda assim, no entanto, o meu rompante de cordial retórica volta à carga. Pacientemente demonstro que o líquido aplicado na veia do condenado, a eletricidade descarregada em seu corpo, qualquer elemento que venha a compor a mórbida encenação, são patrocinados pelos impostos que a população é obrigada a pagar. Completo o raciocínio dizendo com toda a calma que quem paga para matar é tão assassino quanto o carrasco que puxa o gatilho.

Outras vezes, no entanto, quando o limite entre os “extremos bipolares” é rompido, o ímpeto ao sarcasmo se apossa de minhas ideias e reações. Habilidade, paciência, calma..., parecem não fazer sentido. Então os pensamentos não são como o vento forte entoando amena canção. São como um território há vários meses castigado por seca sem precedentes.

Nenhuma nuvem conseguira romper os céus cada vez mais empoeirados. Acumulara-se fumaça de máquinas, chaminés, queimadas. O ar pesado irritara a garganta, sufocara os pulmões, derramara-se nas veias e apossara-se do coração.

Coração poluído, cansado, combalido. Sua verdadeira natureza não é a ferrugem. Talvez amor seja a palavra mais apropriada. Amor em essência e não o produto que se vende nos programas e anúncios da TV. Amor verdadeiro e fluído e onipresente, que diz respeito diretamente à compreensão.

Subitamente essa natureza do coração é subjugada sob camadas espessas. Coração é livre mas se sente preso. Parece querer parar de bater. Deseja apenas inexistir. Pede socorro em silêncio e por fim pulsa revolta. Impulsiona o meu lado obscuro. Qualquer estalar de dedos é o suficiente para que dê vazão a respostas das quais ninguém sentiria orgulho.

“Pena de morte como nós a conhecemos? Você tem muito pouca imaginação! Use a inteligência! Cadeira elétrica, injeção letal, pelotão de fuzilamento, forca, câmara de gás? Hoje em dia os criminosos não temem esse tipo de punição. Muitos deles se deparam com circunstâncias bem mais chocantes antes mesmo do café da manhã. Estamos mais do que acostumados com a morte alheia. Ela não nos importa ou diverte mais. Não há temor ou beleza! Precisamos de algum requinte que a caracterize, senão não lhe damos atenção. Precisamos inovar no “quesito” execução! Sejamos criativos! Vamos inovar instituindo o esquartejamento como método! Começaremos por arrancar as unhas e decepar os dedos dos condenados. Usaremos soluções químicas que mantenham os bandidos acordados durante as torturas com ferro em brasa. O criminoso tem que estar desperto e olhando em nossos olhos enquanto estivermos extraindo os seus dentes com o alicate. Desperto quando rasgarmos as suas orelhas. Acordado enquanto dilaceramos o pênis, os testículos, os seios, o clitóris... Acabaremos com a criminalidade despedaçando marginais e a sociedade não será obrigada nem ao menos a se preocupar com os despojos dos infelizes. A porcaria toda não compartilhará espaço com os defuntos dos cidadãos de bem. Consumiremos os pedacinhos com a colaboração tecnológica dos melhores cientistas e inventores. Ou então podemos contratar o apoio dos maiores nutricionistas do mundo. Cozinharemos os restos dos criminosos no feijão e cobraremos caríssimo pelo prato! Ou talvez fosse melhor darmos uma de filantropos a fim de acabar com a fome do mundo! Feijão com miúdos... Ensopado de carne humana... Hum!, que delícia!”

O espanto e o silêncio em que os ouvintes são imersos – mergulho vertiginoso e sem retorno incólume numa profundidade que aumentava conforme se dava o suceder das minhas palavras; e que, no exato instante da conclusão das ditas ironias, atingira o âmago de um negro mar de sensações inéditas e paradoxais – sempre me impõem a dúvida se eu não sofro mesmo de Transtorno Bipolar.

Sei que pessoas diferentes exigem respostas diferentes sobre a mesma verdade. Sei que palavras macias não convencem quem não conhece a suavidade. Sei que é inútil mostrar belas paisagens a quem tem os olhos vendados. Contudo, eu gostaria de ser mais constante. Devo mesmo sofrer de um distúrbio qualquer.

Talvez eu devesse me conformar com a enfermidade e procurar tratamento médico. Conformar-me com a multidão sonâmbula que se vê por aí. Conformar-me com as passageiras, porém persistentes limitações dos seres humanos. Conformar-me com a inércia e hipocrisia generalizada. Conformar-me com a verdade sobre o falho caráter humano. Conformar-me com o comodismo e a passiva burrice. Conformar-se com...



(Contos e ilustração que os segue do livro de minha autoria, intitulado "Os Nomes na Máquina", Editoras Hemisfério Sul e Canto Escuro, 2009.)

Robert M. Pirsig - Entre Descartes e Timothy Leary



Cometi equívoco quando decidi postar alguns trechos do livro “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas”, de Robert M. Pirsig. A “natureza” do erro é a mesma da ocasião em que estive em Lisboa para apresentar o primeiro livro que publiquei: levar adiante a crença de que as obras deveriam falar por si próprias e que o autor, exposto durante uma sessão de lançamento, não poderia ser levado em conta para julgamento de qualidade ou pertinência da obra. Ora, faça ele malabarismos ou simplesmente a leitura de algumas páginas, não dirá a respeito do livro mais do o bastante para que conquiste a simpatia ou antipatia dos presentes. O malabarismo provavelmente causará simpatia, mas o livro seguirá sendo uma incógnita. As páginas lidas, por mais que deem ao ouvinte uma ideia sobre a obra, estão fora de contexto e são pouco para dizer o que ela é.

O silêncio e consequente desconforto que provoquei durante a sessão em Lisboa podem ser igualmente justificados pela minha inexperiência (era a primeira vez que eu apresentava algo que escrevera) e  dificuldade em falar em alto tom para que mais do que três ou quatro pessoas ouçam de modo inteligível. Os posts sobre o livro do Robert M. Pirsig, no entanto, foram publicados sem qualquer explicação, resumiam-se a trechos da obra. Não há justificativa que explique por que não previ que o título poderia levar a alguma confusão. Recebi e-mails e comentários sugerindo ou perguntando se eu me tornara zen-budista, por exemplo, sendo que o livro é da autoria de um filósofo ateu (ou seria melhor dizer agnóstico?). 

A confusão é compreensível! Após o razoável sucesso de venda do “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas”, vários autores que nem sequer o leram, aproveitaram-se “da onda” na tentativa de vender as suas próprias obras de autoajuda, empreendedorismo etc. Surgiram livros como: Zen e a Arte da Felicidade, Zen e as Aves de Rapina, O Zen e a Psicanálise, O Zen de Steve Jobs, Zen e a Arte da Fotografia, Zen e a Arte da Escrita e por aí vai. O livro do Robert M. Pirsig, porém, foi publicado pela primeira vez no final dos anos 1970, ou seja, muito antes de todos os outros. Trata-se de um livro autobiográfico de filosofia e não sobre o zen-budismo. 

O “Zen” do título é mera referência a uma contraposição de “linhas de pensamento” proposta pelo autor. Robert M. Pirsig acredita que há duas maneiras primárias de se enxergar o mundo e a sociedade e que todas as outras se encaixam nas primeiras.  Ele denomina a primeira “linha” como “Romântica” e a exemplifica citando o modo de pensar dos zen-budistas (budistas, hinduístas, hippies, etc.); e, a segunda, como “Mecanicista” (daí o “Manutenção de Motocicletas” que o autor usa no título para denominar o pensamento que se coaduna ao racionalismo de Descartes, à Mecânica de Newton, ao Método Científico, etc.).

O autor expõe o conflito entre as "correntes de pensamento" e pressupõe a necessidade de uma adequação, uma vez que, segundo ele, grande parte dos problemas modernos surge ou não encontra solução devido às discordâncias. Robert Pirsig investiga desde o embate entre socráticos e sofistas, passando pelo pensamento de Platão, Aristóteles, Hume, Kant... até chegar nos dias atuais, usando a figura de Fedro como protagonista e como cenário uma viagem de motocicleta que o próprio Pirsig fez tendo o seu jovem filho na garupa. Assim como “disseca” o “Pensamento Romântico”, Robert M. Pirsig analisa o “Método Científico”. Abaixo segue trecho do livro e aos poucos atualizarei este post incluindo outras passagens da obra:

"Naquela noite eu disse a Chris que Fedro passara a vida inteira perseguindo um fantasma. É verdade. Era o fantasma inerente à tecnologia, a toda a ciência moderna, a todo o pensamento filosófico. O fantasma da própria racionalidade. Contei a Chris que ele tinha encontrado o fantasma e que o havia destruído. Creio que, num sentido figurado, isso é verdade. O que desejo revelar, à medida que prosseguimos, são algumas das coisas que ele descobriu. Agora os tempos são outros, e pode ser que alguém encontre nestas ideias alguma validade. Naquela época, ninguém via o fantasma perseguido por Fedro, mas creio que hoje cada vez mais pessoas o veem ou entreveem nos maus momentos, um fantasma que se denomina racionalidade, mas cuja aparência é de incoerência e falta de significado, fazendo com que a mais normal das ações cotidianas pareça meio despropositada, devido à sua total irrelevância em relação ao restante das coisas. Esse é o fantasma dos pressupostos normais de cada dia, que declaram que o objetivo final da vida, que é sobreviver, não pode ser alcançado, mas continua a ser o objetivo final, de qualquer maneira, e assim os grandes homens continuam a curar as doenças para que as pessoas possam viver por mais tempo. Só os loucos questionam isso. A gente vive mais para poder viver mais ainda. Não há outro objetivo. É o que diz o fantasma.
[...] A formação de hipóteses é a fase mais misteriosa do método científico. De onde elas vêm, ninguém sabe. A pessoa está sentada num lugar qualquer, pensando na vida, e de repente – zás! – passa a entender uma coisa que não entendia antes. Até ser testada, a hipótese não é verdadeira, mas ela não provém de experiências. Origina-se em outro lugar. Disse Einstein:
“O homem tenta elaborar para si mesmo, do modo que melhor lhe pareça, uma descrição simplificada e inteligível do mundo. Depois, tenta até certo ponto substituir o mundo da experiência por esse universo por ele construído, para poder dominar toda a natureza... Ele faz desse universo e da sua construção o centro de sua vida emocional, para encontrar, assim, a paz e a serenidade que não consegue dentro dos limites a ele impostos pelo turbilhão da experiência pessoal. O objetivo último a ser atingido é chegar àquelas leis elementares universais a partir das quais o universo foi construído através de pura dedução. Não há um caminho lógico que conduza até essas leis; apenas a intuição, baseada no conhecimento afetivo da experiência, pode conduzir a elas...”
Intuição? Afetividade? Palavras estranhas para descrever a origem do conhecimento científico.
Alguém que fosse menos cientista que Einstein teria dito: “Mas o conhecimento científico vem da natureza. É a natureza que fornece as hipóteses.” Einstein, porém, sabia que não é assim. A natureza só fornece dados experimentais.
[...]O rompimento de Fedro com o sistema lógico ocorreu quando, em consequência de algumas experiências de laboratório, ele se interessou pelas hipóteses como entidades em si mesmas. Ele já havia percebido várias vezes, no seu trabalho de laboratório, que o que poderia parecer a parte mais difícil do trabalho científico, a criação das hipóteses, era sempre a mais fácil. O simples ato de anotar formalmente tudo, com a maior precisão e clareza possíveis, já parecia sugerir as hipóteses.
[...]No começo, ele achava aquilo divertido. Inventou até uma lei gozadora, no estilo das Leis de Parkinson, segundo a qual “o número de hipóteses racionais que podem explicar qualquer fenômeno dado é infinito”. Foi só meses após ter criado essa lei que ele começou a ter algumas dúvidas sobre a graça ou utilidade que ela teria.
Se fosse verdadeira, a lei não detectaria uma simples escorregadela do raciocínio científico. Seria completamente niilista, uma catastrófica refutação lógica da validade geral de todo o método científico!
Se o propósito do método científico é selecionar uma dentre inúmeras hipóteses, e se o número de hipóteses cresce tão rápido que o método científico não pode controlá-las, fica claro que nunca se poderão testar todas as hipóteses; os resultado de qualquer experiência serão, portanto, incompletos, e o método científico inteiro deixa de alcançar o objetivo de estabelecer um saber comprovado.
Einstein comentou, a respeito, que “a evolução mostrou que a qualquer momento há sempre uma hipótese que se destaca, por ser nitidamente superior às outras”, e ficou por aí. Mas para Fedro, tal resposta não era ainda satisfatória. A frase “a qualquer momento” causou-lhe profundo impacto. Será que Einstein acreditava que a verdade era uma função do tempo? Afirmar isso seria o mesmo que arrasar o pressuposto mais básico de toda a ciência.
E, no entanto, isto se observa em toda a história da ciência, que é nitidamente uma sucessão de explicações sempre novas e mutáveis sobre os mesmos velhos fatos. (...) quanto mais hipóteses, menor o tempo de vida da verdade. E o que parece estar fazendo com que cresça o número de hipóteses nas últimas décadas é nada mais nada menos que o próprio método científico. Quanto mais se olha, mais se vê. Ao invés de selecionar uma verdade dentre uma quantidade de hipóteses, aumenta-se essa quantidade. Logicamente, isso significa que, ao se tentar alcançar a verdade imutável através da aplicação do método científico, não se realiza qualquer progresso. Pelo contrário, passamos a distanciar-nos dessa verdade!
Aquilo que Fedro observou a nível pessoal era um fenômeno bastante característico da história da ciência, omitido durante anos. Os resultados previstos da pesquisa científica e os resultados reais estão diametralmente opostos neste ponto, e ninguém parece prestar muita atenção a este fato. O objetivo do método científico é selecionar uma dada verdade dentre muitas verdades hipotéticas. A ciência consiste essencialmente nisso. Historicamente, porém, a ciência faz exatamente o contrário: através de um acúmulo descomunal de fatos, dados, teorias e hipóteses, é ela mesma quem está levando a humanidade das verdades únicas e absolutas para as verdades múltiplas e relativas. O principal gerador do caos social, da indecisão do pensamento e valores que o conhecimento racional se destina a eliminar é nada mais nada menos que a própria ciência. O que Fedro percebeu no isolamento do seu trabalho de laboratório há anos atrás é percebido agora em todas as partes do mundo tecnológico. Anticiência produzida cientificamente. Um verdadeiro caos."

(Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas, by Robert M. Pirsig. Paz e Terra, 1984.)

Publicado originalmente no Rainbow & Wafer.